domingo, 6 de março de 2016

A MENSAGEM DE UMA PARÁBOLA: UM PAI E UM DEUS DIFERENTE


O quarto domingo da quaresma, em particular neste ano, ano da misericórdia, onde somos convidados a contemplar o rosto misericordioso de Deus, nos premia com um texto evangélico magnifico para aprofundarmos nesta contemplação.
 
   Proclamamos uma parábola que deveria ser intitulada pela centralidade da misericórdia: parábola do pai misericordioso[1]. É uma das maiores narrações sobre a misericórdia de Deus. Afirma ainda Kasper: “em nenhuma outra parabola Jesus descreveu tão magistralmente a misericórdia de Deus como nessa”[2] 


   O evangelista Lucas, “scriba mansuetudinis Christi”, como afirmava Dante Alighieri, ocupa mais da metade do seu capítulo décimo quinto com a famosa parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32).

 
O pai da parábola de Jesus, um pai diferente, longe das suas ações legais, é a metáfora do Deus que ele anuncia, a cuja casa sempre nos chama a retornar. É a metáfora de um Deus contrário a toda humana forma de pensar: é um Deus diferente[3].

 
Uma das afirmações centrais do evangelista é que naquela casa não falta nada (cf. v.17), porém o filho mais novo quer procurar outra felicidade que imagina ser superior. O filho proclama a morte do Pai, quer sua herança. Eis o grande perigo da ideologia moderna que quer gozar dos bens divinos, das obras criadas, da beleza de Deus, mas quer proclama-lo morto: “Deus está morto”. Não queremos ser gerenciados por ninguém, queremos conduzir uma vida sozinhos, queremos ser patrão de nós mesmos, não queremos confiar e depender de Deus, possuindo assim um coração inquieto. Ainda podemos intitular a parábola como “da modernidade e do nosso coração inquieto”.

 
O pai respeita a liberdade do filho e permite a sua partida. O filho vai a uma região longínqua e desperdiça sua herança numa vida devassa (v.13). Um príncipe se torna escravo; um rei, vassalo; um filho, servo. Assim, no seu caminho começa a sentir-se necessitado e foi capaz de querer alimentar-se com alimentos desumanos (cf. v.16), a partir disso “caindo-se em si” (v.17), reconhece a fartura e a beleza da casa de seu pai[4].

 
Na descrição do encontro do pai com o filho nos chama a atenção que o pai o reconhece ainda de longe (v.20)[5]. Certamente, para o pai, o filho abusou sim dos seus próprios direitos e perdeu os bens da sua casa, mas isto não lhe interessa, o que lhe importa é a vida do seu filho. Desse modo, não espera que o filho chegue, mas lhe vai ao encontro.

 
As características deste Pai, que nós as transferimos para Deus é: humildade, Deus acredita na humanidade, se inclina com misericórdia e com respeito a sua alteridade – como cantava Francisco de Assis no Louvor ao Deus Altíssimo: “Tu és humildade”); é um Deus de esperança, escruta o horizonte – olha ao longe, tem a certeza do retorno; é um Deus rachamim, que na linguagem do primeiro testamento possui vísceras maternas; é um Deus corajoso, é um pai que não tem medo de perder a sua identidade, seu comportamento solene, patriarcal, hierárquico; é um Deus alegre – que faz festa, o beija, o abraça, e mediante três símbolos (a melhor túnica, anel no dedo e sandálias aos pés) reintegra a identidade filial (cf. v.22).

 
O arrependimento do filho, expresso quando o mesmo diz: “não sou digno de ser chamado teu filho” (v.21), é acolhido e superado pela misericórdia do pai.

 
Oposta à ação paterna é a do filho mais velho (obediente, mas frustrado; certinho, mas sem convicção), os mesmos têm objetivos e linguagem contrapostas: um fala de novilho e patrimônio, outro de filho reencontrado e ressuscitado; um recorda a lei, outro recorda o coração, o amor e a compreensão; um se coloca na posição de justo castigo, outro se coloca na prospectiva do perdão e da misericórdia.
 
Il genere di perfezione vissuta dal figlio maggiore gli impedisce di entrare nella logica del padre, una logica basata sull’amore gratuito: la sollecitudine del padre gli appare esagerata, ingiusta. Lo scandalo che provoca quest’amore per il primo figlio porta alla luce la gelosia del secondo, gelosia che a sua volta manifesta il rapporto falso, inautentico che esisteva tra il primogenito e suo padre: il secondo figlio non ama un padre, ma obbedisce a un padrone[6].

  
A partir do discurso do filho mais velho com o pai, afirmamos que a misericórdia do pai nesta parábola é a melhor realização da justiça, pois: “torna-se claro que o amor se transforma em misericórdia quando é preciso ir além da norma exata da justiça: norma precisa, mas, por vezes, demasiada e rigorosa”[7].

 
Por conseguinte, toda a atitude e ação no pai da parábola nos permite encontrar a visão da misericórdia no AT, porém de uma maneira nova, simples e profunda. Existe uma verdadeira comoção: tudo é cercado de alegria e misericórdia[8]. O pai do filho pródigo é fiel à sua paternidade e tal fidelidade manifestou-se na prontidão com que foi capaz de receber seu filho que retornava de uma vida de gastos e na sua alegre e acolhedora generosidade ao fazer uma festa.
 
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.





[1] Cf. U. Terrinoni, Il messaggio, 161-184; K. Romaniuk, La misericórdia nella Bibbia¸ 83; W. Kasper, Misericordia, 107. Outras denominações nos confere Ramos-Regidor: «In un senso generale si può dire innanzitutto che questa è la parabola della condizione umana, perchè tutti sono peccatori, allontanati dal Padre e infedeli alla sua alleanza. Ma essa è anche la parabola dell’amore misericordioso di Dio verso gli uomini: Dio è Padre che rispetta la libertà del peccatore, ma attende il suo ritorno e corre incontro con le braccia aperte al peccatore pentito. Finalmente essa è anche la parabola del ritorno, della conversione lenta, dolorosa, progressiva del peccatore verso il padre» (J. Ramos-regidor, Il sacramento della penitenza, 116).
[2] W. Kasper, Misericordia, 108.
[3] Cf. B. Forte, «Perdono e riconciliazione: scenari del tempo, scenari del cuore», in Aa.Vv. Celebrare la misericordia, 15-25.
[4] Afirma João Paulo II: «O homem, – cada um dos homens – é este filho pródigo: fascinado pela tentação de se separar do Pai para viver de modo independente a própria existência; caído na tentação; desiludido do nada que, como miragem, o tinha deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que tenta construir um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo da própria miséria, pelo desejo de voltar à comunhão com o Pai. Como o pai da parábola, Deus fica à espreita do regresso do filho, abraça-o à sua chegada e põe a mesa para o banquete do novo encontro, com que se festeja a reconciliação» (João Paulo II, «Riconciliatio et paenitentia», n.5).
[5] Comenta Aletti: «Per il padre conta una sola cosa: che sia lì e che possa restituirlo alla vita, alla gioia dei figli. Apprendiamo poi che durante tutto il tempo della separazione, il padre ha sempre considerato il giovane come suo figlio [...] La filiazione non era perciò legata ad un merito, ma veniva da una decisione paterna intangibile, era una condizione che non si poteva perdere: tu sei e resterai il mio figlio, dovunque tu sia andato e qualunque cosa tu abbia fatto» (J.N. Aletti, Il Gesù di Luca, 153).
[6] G. Rossè, Il Vangelo di Luca. Commento esegetico e teologico, 615.
[7] DM, n.6.
[8] Escreve Romaniuk: «in tutte e tre le parabole della misericordia di Luca, la misericordia è inseparabile dall’alegria, o, per meglio dire, la gioia è la conseguenza o il frutto della misericordia» (K. Romaniuk, La misericórdia nella Bibbia¸ 84).

3 comentários:

  1. Gratidão, porque assim a Homilia de hoje permanece por escrito para nossa reflexão posterior!

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  2. Nossa linda reflexão Frei Felipe neste parábola o senhor vem nos mostrar a misericórdia do Pai para conosco, primeiro diante do filho que depois de gastar tudo volta arrependido, e depois a frustração do irmão, mas velhos que espera do pai uma rigidez talvez até uma expulsão do filho por ter perdido tudo, mas o filho empregado e obediente não tem o coração formado com o coração do pai, por isto não aprendeu a ser misericordioso. Obrigado por esta reflexão Frei.

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  3. Maravilha frei Felipe Deus seja louvado por sua vocação.

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