segunda-feira, 16 de maio de 2016

A EUCARISTIA É O MEMORIAL DO MISTÉRIO PASCAL

 
Existe uma íntima ligação entre o Mistério Pascal de Cristo e o mistério eucarístico, ou melhor, existe um elo essencial entre a Páscoa e a Eucaristia, pois esta é o lugar sacramental em que a Páscoa de Cristo é dilatada e se torna a Páscoa da Igreja, "a oferta da ressurreição", segundo São Gregório Nazianzeno.

Na última ceia com seus discípulos, a primeira da Igreja, no corpo dado e no sangue derramado, Jesus prefigura o sacrifício da cruz. Na própria instituição da eucaristia já acontece todos os eventos sucessivos: de agonia, paixão, crucificação, da noite fria do sepulcro, da manhã radiosa da páscoa. Desse modo, perpetua-se o sacrifício da cruz até que ele venha e nos confia o memorial da sua morte e ressurreição, tornando-o assim: “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal” (cf. SC, 47).

De fato, não poderia existir alguma memória se não fosse a ressurreição de Cristo. A ressurreição é a manifestação histórica e escatologicamente irreversível da auto-promessa divina ao mundo, como afirma Karl Rahner. Enquanto no passado a mensagem da páscoa tocava principalmente a paixão e morte de Jesus – e o mistério da ressurreição era estudado somente como triunfo pessoal de Cristo sobre os seus inimigos, do início do século passado a ressurreição ocupa um renovado interesse como evento salvífico e fundante da nossa fé.

A morte, a sepultura e a vida eterna faz parte de um só mistério. Tal afirmação coloca em crise toda a reconstrução medieval e moderna do tríduo e do tempo pascal, que o duplicavam, criando um “tríduo da paixão” e depois um “tríduo da ressurreição”. Grande parte da nossa espiritualidade, da nossa arte, da nossa liturgia foi construída em torno a esta hipótese de separação/ oposição entre morte e ressurreição (cf. Andrea Grillo).  

Compreender a unidade do mistério nos ajudará a assumir as palavras do apóstolo Paulo que diz: “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (ICor 15,17). Com isso, devemos tomar consciência que atualizamos o memorial da paixão, morte, ressurreição e manifestação gloriosa do Senhor Jesus quando aclamamos:
 
Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!
Salvador do mundo, salvai-nos! Vós que nos libertastes pela cruz e ressurreição.
Toda vez que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda.

 Assim, quando após a narração das palavras de Jesus na última ceia (“Tomai, todos, e comei; [...] Tomai, todos, e bebei”), convidados pelo presidente da celebração a responder ao ‘mistério da fé’, recordamos a íntima ligação entre o sacrifício da cruz e sua renovação sacramental, a partir da memória ritual, na celebração da Eucaristia (cf. IGMR, n.1). Consequentemente, a Eucaristia é ao mesmo tempo um sacrifício de louvor, ação de graças, propiciação e expiação e, especialmente, o memorial da Páscoa.

A grande oração, ainda, continua ao afirmar essa íntima ligação: “Celebrando agora, ó Pai, a memória do vosso Filho, da sua paixão que nos salva, da sua gloriosa ressurreição e da sua ascensão ao céu; e enquanto esperamos a sua nova vinda, nós vos oferecemos em ação de graças este sacrifício de vida e santidade” (cf. Oração Eucarística III). A cruz (paixão e morte), a ressurreição e a segunda vinda é o coração da memória que celebramos. É o coração da Páscoa do Senhor. Este coração, este memorial, é ainda a regula fidei, ou melhor, a lex orandi que se torna lex credendi e lex vivendi.

O evangelista Lucas, na sua narração sobre os discípulos de Emaús, nos permite refletir sobre este vínculo existente entre a morte de Jesus, sua páscoa, e a fração do pão (cf. Lc 24, 13-35). Jesus estando com seus discípulos, escutou as desilusões e os dramas que a sua morte havido causado naqueles que o seguiam. Acompanhando-os ao longo do caminho, “explicou-lhes as Escrituras e tudo o que Lhe dizia respeito”. Já na caminhada com Jesus os discípulos começam a ver a morte de Jesus de um modo novo. O que acontecera naqueles dias já não aparece como um fracasso, mas cumprimento de um novo início. Todavia, mesmo estas palavras não parecem ainda suficientes para os dois discípulos. O Evangelho de Lucas diz que “abriram-lhes os olhos e reconheceram-No” somente quando Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes deu. Antes, “os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem”.

A presença de Jesus, primeiro com as palavras e depois com o gesto de partir o pão, tornou possível aos discípulos reconhecê-Lo e apreciar de modo novo tudo o que tinham vivido anteriormente com Ele. Conseguiram ver de modo novo a ceia do Senhor, o seu sacrifício, a Eucaristia (cf. Verbum Domini, n. 61).

Desse modo, o mistério eucarístico, na celebração dominical, é o lugar onde a Igreja sempre procurar obedecer às palavras dadas pelo Senhor: “Fazei isto em memória de mim”. Cristo, ao pedir isso aos seus discípulos, realiza uma ação ritual simbólica que une a páscoa antiga, superando-a, com a nova páscoa, dando-lhe nova interpretação.

A eucaristia não é um sacrifício independente, eficaz por ela mesma, nem é repetição do sacrifício da cruz. O pão dividido é sacrifício enquanto presença do Cristo crucificado, glorioso e intercessor. Existe assim uma única oblação do corpo de Jesus, mas em três aspectos: o sacrifício único e perfeito de Cristo na cruz, ato histórico, fundamento da salvação; o sacrifício celeste e perpétuo de Cristo na sua intercessão, ato eterno; o sacrifício memorial de Cristo na eucaristia da Igreja, sacramento da salvação. Igualmente, todos os sacramentos não são mais do que a aplicação da paixão de Cristo naqueles que os recebem. Uma coisa é, de fato, repetir a paixão de Cristo, outra coisa é repetir o memorial e a aplicação da paixão de Cristo.

Cada sacramento é uma manifestação eclesial privilegiada da presença da Páscoa de Cristo na história humana e, desse modo, a manifestação eclesial privilegiada do amor divino de Cristo pelos homens (dom da graça) e do amor humano de Cristo por Deus (ato de culto). Então, cada sacramento é evento pascal enquanto é a maior manifestação e atuação da estrutura sacramental da Igreja (cf. E. Schillebeeckx).

O memorial não é somente “representação” e “atualização”, mas também antecipação do retorno glorioso de Cristo e do seu reino. Através dessa dimensão escatológica a Igreja manifesta ao mundo como sinal profético e com renovada esperança, no presente, a realização do reino participando na obra de Cristo e do Espírito.

O memorial da eucaristia é o meio, por excelência, que Cristo deixou a Igreja que vive para encontra-lo e fazer a experiência do reino que vem. De fato, enquanto celebramos o memorial da páscoa, a Igreja recebe realmente o Cristo e se aproxima do reino que vem. Então, não só participa da oração de Cristo diante do Pai, para acelerar o dia do retorno glorioso, mas na própria eucaristia já chega, pelo mistério dos ritos e símbolos, ao seu Senhor e ao seu reino.  

É essa a força que opera na páscoa. A Igreja tem sentido somente quando perdoa, quando oferece o pão. E quando reflete ou faz teologia deve recordar sempre que não existe nada melhor para exprimir do que a potência da ressurreição. Cada palavra dita deve abrir, libertar alguém, fazer alcançar a inteligência de Deus, no seu mistério mais profundo, que é mistério da existência, do ser e do amor (cf. A. Gouzes).
 
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.


segunda-feira, 21 de março de 2016

O TRÍDUO PASCAL: A PÁSCOA CELEBRADA EM TRÊS DIAS E EM TRÊS GESTOS SIMBÓLICOS-RITUAIS


A descida de Cristo aos infernos onde toma pelas mãos Adão e Eva
para traze-los à vida (Igreja da S. Trindade - Monte Argentario - Italia).
 
Depois de 40 dias de preparação pela oração, jejum e esmola “viveremos” o porquê nos preparamos para celebrar. É o Mistério de Cristo consagrado em três dias numa semana diferente que chamamos de “santa”, pois nela celebramos os mistérios de nossa salvação.

Estamos diante da “perfeita obra da redenção”, ou seja, do projeto de Deus que foi realizado em Jesus através do Mistério de sua Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão, em que “morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida[1].

Celebrar essa liturgia é atualizar esse mistério, não apenas reduzindo-o a recordação de um fato salvífico e histórico, mas o tornando presente pela riqueza da nossa fé. Esses dias são consagrados através de ritos e gestos, de orações, de textos, de cantos, de momentos de silêncio e adoração. De fato, o desejo da Igreja é que os cristãos não entrem neste Mistério de Fé como “estranhos ou espectadores mudos, mas participem ativamente da ação sagrada, [...] por meio dos ritos e das orações[2].

As equipes de liturgia, sobretudo, os coordenadores e comentaristas, são convidados a deixarem os ritos falarem por si mesmos. A comunidade deve fazer sua experiência de celebrar não explicando a riqueza de cada gesto ou símbolo utilizado. O comentário reduz uma experiência comunitária a uma experiência individual e, muitas vezes, a uma experiência que lemos em algum livro (internet). Se deve respeitar o encontro de fé da igreja que é capaz de se encontrar com o Ressuscitado.

Outro passo importante é esclarecer quais são os três dias que compõem o Tríduo Pascal. O tempo cronológico nos habitua a pensar que os três dias (tríduo) são: quinta-feira, sexta-feira e sábado santos, e, ainda, que esses três dias servem como preparação para a Páscoa.

Na verdade, o Tríduo Pascal é a Páscoa celebrada em três dias. Não podemos dividir a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Os três acontecimentos é somente um Mistério. Quando somente celebramos a Paixão e a Morte, corremos o risco de deixarmos a Ressurreição como um “outro” evento totalmente à parte, e não é bem assim. A solenidade anual da Páscoa é diferente de todas as outras solenidades e festas do ano litúrgico; não é uma solenidade de apenas um dia, mas de três dias distintos que se igualam na mesma solenidade.

Salvatore Marsili, um dos maiores teólogos da liturgia do último século, diz que “o cume do Tríduo é o Domingo de Páscoa”. Da ‘Missa da Ceia do Senhor’ (quinta-feira) até o fim da ‘Solene Adoração da Santa Cruz’ (sexta-feira) celebramos o primeiro dia; da ‘Solene Adoração da Santa Cruz’ até o fim da ‘Vigília Pascal’ (sábado à noite), o segundo dia; do fim da ‘Vigília Pascal’ até a última celebração do ‘Domingo da Ressurreição’, celebramos o terceiro dia, completando o Tríduo Pascal. Acompanhando a liturgia veremos que quinta, sexta e sábado constituem uma celebração e no domingo da Páscoa iniciamos outra celebração. Não sendo ‘quatro’ missas, mas apenas duas em três dias”.

Desse modo, ao celebrarmos esses dias vemos se cumprir as palavras do próprio Deus a Moisés e a Aarão na terra do Egito: “Esse dia será para vocês um memorial, pois nele celebrarão uma festa de Javé. Vocês o celebrarão como um rito permanente, de geração em geração. [...] Quando seus filhos perguntarem: Que rito é este? Vocês responderão: 'É o sacrifício da Páscoa de Javé”[3].

Somos convidados a todos os dias vivermos esse Mistério, celebrando os momentos e mudando nossa mentalidade para participarmos efetivamente da Páscoa. Hoje, encontramos nas ruas ‘cristãos’ que escolhem um dos três dias para “ir” na Igreja. Certamente o “ir” deste modo, tem o sentido de um preceito, uma obrigação falando que é bom “ir”, e, com isso, perdemos o verdadeiro sentido de celebrar (participar) do projeto de Deus. “Ir” a um dos três dias é reduzir todo o Mistério não se comprometendo para uma mudança de vida interior e social. Assim, encontramos um cristianismo pagão que celebra por preceito, porque é bom, porque dá sorte, ou ainda, porque faz mal não ir à igreja nesses dias.

O Tríduo Pascal são “dias memoriais” que recordam a libertação do Egito, a prefiguração da nossa libertação em Cristo. Dias celebrativos que nos fazem a crer que pela paixão-morte-ressurreição de Cristo, única Páscoa da nossa salvação, todos nós, homens e mulheres, passamos Nele e com Ele do pecado à vida em Deus. Aqui, encontramos o sentido de toda a preparação quaresmal e do convite à conversão.

Celebrar a Páscoa em três dias é mais do que reviver um fato histórico, mas é recordar e atualizar o sacrifício de Jesus no mundo atual acolhendo os sacramentos que nos garantem uma nova vida e juntos entoarmos: “O cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue do Senhor”[4].

Estes dias memoriais nos convidam, a partir do caráter único do evento Pascal, uma vez no ano cumprir três ações simbólicas: adorar a cruz de joelhos, estar em silêncio no sepulcro, vigiar em torno ao Círio. Tais gestos correspondem à verdade da história evangélica onde encontramos uma unidade entre o Crucificado e o Ressuscitado, conhecido como “Mistério Pascal” desde o inicio do cristianismo[5].

Na ostentação, procissão e adoração da cruz somos convidados a partir da revelação do Mistério a dar uma resposta. O ministro canta: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo”, e a assembleia responde: “Vinde, adoremos!”. Cada um se ajoelha exprimindo o estupor diante de um evento incompreensível à lógica humana. O estupor é caracterizado em um gesto que acompanha uma grande sensibilidade: o beijo. Tal expressão é a compreensão de que naquela morte já existe a vida, esta não vem somente depois, ao terceiro dia. É um ato simbólico coerente com a fecundidade da vida.

No sábado santo chama-nos atenção outro gesto significativo. O estar em silêncio em um dia particular caracteriza o ideal de viver a Páscoa anual como salvação do tempo marcado pelo vórtice do nada. No dia anterior tínhamos deixado a Igreja em silêncio, mas este agora recebe uma força mais significativa pela força da ausência, contemplando o amor na sua descida ao mais fundo abismo.

O sábado santo é o dia do silêncio. No sétimo dia é o repouso de Deus, afirma o livro do Génesis; no sétimo dia Deus terminou a sua obra e repousou; no sétimo dia também Cristo termina a sua obra de salvação e repousa no “útero” da terra.

Assim, Na sexta-feira contemplamos na glória do Crucifixo como primeira cena da Páscoa anual: olhar o peito traspassado de Cristo nos conduz ao rito de adoração da Cruz; e, antes de entrar em outro momento, onde na noite encontramos uma segunda cena, a “descida nos infernos” já nos envolve num silêncio perspectivo. Se aos pés da cruz gloriosa somos capazes de contemplar a revelação do amor, no final do grande silêncio do sábado santo viveremos a passagem de vida, onde Cristo supera a morte.

O Ritual da Vigília é marcado pela: Ascenção do Círio Pascal, o canto do Exultat e na escuta das Escrituras como nossa História da Salvação. São propostas que nos animam a “ficar acordados” no coração da noite. Celebrar a Vigília a noite envolve a comunidade na esperança salvífica que nos faz passar das trevas à luz. O Círio é sinal do ressuscitado. Cheios de estupor cantamos o Exultat com nossas velas acessas na luz do ressuscitado. A força santificante desta noite apaga o mal, lava a culpa, inocenta o pecador e enche de alegria os aflitos, extirpa o ódio, a dureza dos potentes e nos conduz à paz e a concórdia.

Estas três ações: adorar a cruz de joelhos, estar em silêncio no sepulcro, vigiar na espera do Ressuscitado em torno ao Círio, caracterizam a cena ritual de cada dia. Mas, o sentido mais profundo é vivido na unidade celebrativa do Tríduo que é a revelação do amor da Trindade.
 

Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
Uma santa e abençoada Páscoa!
 
 
 
Artigo publicado: Marques, L.F., Triduo Pascal, in: Revista Cavaleiro da Imaculada 426 (03/2016) 24-27 



[1] Cf. SC, 5.
[2] Cf. idem., 48.
[3] Cf. Ex 12, 14. 26-27.
[4] Cf. I Cor 10, 16.
[5] Giordano Remondi, Adorare – stare in silenzio – vegliare, La “diversa” festa solenne del Triduo pasquale, 2015.

domingo, 6 de março de 2016

A MENSAGEM DE UMA PARÁBOLA: UM PAI E UM DEUS DIFERENTE


O quarto domingo da quaresma, em particular neste ano, ano da misericórdia, onde somos convidados a contemplar o rosto misericordioso de Deus, nos premia com um texto evangélico magnifico para aprofundarmos nesta contemplação.
 
   Proclamamos uma parábola que deveria ser intitulada pela centralidade da misericórdia: parábola do pai misericordioso[1]. É uma das maiores narrações sobre a misericórdia de Deus. Afirma ainda Kasper: “em nenhuma outra parabola Jesus descreveu tão magistralmente a misericórdia de Deus como nessa”[2] 


   O evangelista Lucas, “scriba mansuetudinis Christi”, como afirmava Dante Alighieri, ocupa mais da metade do seu capítulo décimo quinto com a famosa parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32).

 
O pai da parábola de Jesus, um pai diferente, longe das suas ações legais, é a metáfora do Deus que ele anuncia, a cuja casa sempre nos chama a retornar. É a metáfora de um Deus contrário a toda humana forma de pensar: é um Deus diferente[3].

 
Uma das afirmações centrais do evangelista é que naquela casa não falta nada (cf. v.17), porém o filho mais novo quer procurar outra felicidade que imagina ser superior. O filho proclama a morte do Pai, quer sua herança. Eis o grande perigo da ideologia moderna que quer gozar dos bens divinos, das obras criadas, da beleza de Deus, mas quer proclama-lo morto: “Deus está morto”. Não queremos ser gerenciados por ninguém, queremos conduzir uma vida sozinhos, queremos ser patrão de nós mesmos, não queremos confiar e depender de Deus, possuindo assim um coração inquieto. Ainda podemos intitular a parábola como “da modernidade e do nosso coração inquieto”.

 
O pai respeita a liberdade do filho e permite a sua partida. O filho vai a uma região longínqua e desperdiça sua herança numa vida devassa (v.13). Um príncipe se torna escravo; um rei, vassalo; um filho, servo. Assim, no seu caminho começa a sentir-se necessitado e foi capaz de querer alimentar-se com alimentos desumanos (cf. v.16), a partir disso “caindo-se em si” (v.17), reconhece a fartura e a beleza da casa de seu pai[4].

 
Na descrição do encontro do pai com o filho nos chama a atenção que o pai o reconhece ainda de longe (v.20)[5]. Certamente, para o pai, o filho abusou sim dos seus próprios direitos e perdeu os bens da sua casa, mas isto não lhe interessa, o que lhe importa é a vida do seu filho. Desse modo, não espera que o filho chegue, mas lhe vai ao encontro.

 
As características deste Pai, que nós as transferimos para Deus é: humildade, Deus acredita na humanidade, se inclina com misericórdia e com respeito a sua alteridade – como cantava Francisco de Assis no Louvor ao Deus Altíssimo: “Tu és humildade”); é um Deus de esperança, escruta o horizonte – olha ao longe, tem a certeza do retorno; é um Deus rachamim, que na linguagem do primeiro testamento possui vísceras maternas; é um Deus corajoso, é um pai que não tem medo de perder a sua identidade, seu comportamento solene, patriarcal, hierárquico; é um Deus alegre – que faz festa, o beija, o abraça, e mediante três símbolos (a melhor túnica, anel no dedo e sandálias aos pés) reintegra a identidade filial (cf. v.22).

 
O arrependimento do filho, expresso quando o mesmo diz: “não sou digno de ser chamado teu filho” (v.21), é acolhido e superado pela misericórdia do pai.

 
Oposta à ação paterna é a do filho mais velho (obediente, mas frustrado; certinho, mas sem convicção), os mesmos têm objetivos e linguagem contrapostas: um fala de novilho e patrimônio, outro de filho reencontrado e ressuscitado; um recorda a lei, outro recorda o coração, o amor e a compreensão; um se coloca na posição de justo castigo, outro se coloca na prospectiva do perdão e da misericórdia.
 
Il genere di perfezione vissuta dal figlio maggiore gli impedisce di entrare nella logica del padre, una logica basata sull’amore gratuito: la sollecitudine del padre gli appare esagerata, ingiusta. Lo scandalo che provoca quest’amore per il primo figlio porta alla luce la gelosia del secondo, gelosia che a sua volta manifesta il rapporto falso, inautentico che esisteva tra il primogenito e suo padre: il secondo figlio non ama un padre, ma obbedisce a un padrone[6].

  
A partir do discurso do filho mais velho com o pai, afirmamos que a misericórdia do pai nesta parábola é a melhor realização da justiça, pois: “torna-se claro que o amor se transforma em misericórdia quando é preciso ir além da norma exata da justiça: norma precisa, mas, por vezes, demasiada e rigorosa”[7].

 
Por conseguinte, toda a atitude e ação no pai da parábola nos permite encontrar a visão da misericórdia no AT, porém de uma maneira nova, simples e profunda. Existe uma verdadeira comoção: tudo é cercado de alegria e misericórdia[8]. O pai do filho pródigo é fiel à sua paternidade e tal fidelidade manifestou-se na prontidão com que foi capaz de receber seu filho que retornava de uma vida de gastos e na sua alegre e acolhedora generosidade ao fazer uma festa.
 
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.





[1] Cf. U. Terrinoni, Il messaggio, 161-184; K. Romaniuk, La misericórdia nella Bibbia¸ 83; W. Kasper, Misericordia, 107. Outras denominações nos confere Ramos-Regidor: «In un senso generale si può dire innanzitutto che questa è la parabola della condizione umana, perchè tutti sono peccatori, allontanati dal Padre e infedeli alla sua alleanza. Ma essa è anche la parabola dell’amore misericordioso di Dio verso gli uomini: Dio è Padre che rispetta la libertà del peccatore, ma attende il suo ritorno e corre incontro con le braccia aperte al peccatore pentito. Finalmente essa è anche la parabola del ritorno, della conversione lenta, dolorosa, progressiva del peccatore verso il padre» (J. Ramos-regidor, Il sacramento della penitenza, 116).
[2] W. Kasper, Misericordia, 108.
[3] Cf. B. Forte, «Perdono e riconciliazione: scenari del tempo, scenari del cuore», in Aa.Vv. Celebrare la misericordia, 15-25.
[4] Afirma João Paulo II: «O homem, – cada um dos homens – é este filho pródigo: fascinado pela tentação de se separar do Pai para viver de modo independente a própria existência; caído na tentação; desiludido do nada que, como miragem, o tinha deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que tenta construir um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo da própria miséria, pelo desejo de voltar à comunhão com o Pai. Como o pai da parábola, Deus fica à espreita do regresso do filho, abraça-o à sua chegada e põe a mesa para o banquete do novo encontro, com que se festeja a reconciliação» (João Paulo II, «Riconciliatio et paenitentia», n.5).
[5] Comenta Aletti: «Per il padre conta una sola cosa: che sia lì e che possa restituirlo alla vita, alla gioia dei figli. Apprendiamo poi che durante tutto il tempo della separazione, il padre ha sempre considerato il giovane come suo figlio [...] La filiazione non era perciò legata ad un merito, ma veniva da una decisione paterna intangibile, era una condizione che non si poteva perdere: tu sei e resterai il mio figlio, dovunque tu sia andato e qualunque cosa tu abbia fatto» (J.N. Aletti, Il Gesù di Luca, 153).
[6] G. Rossè, Il Vangelo di Luca. Commento esegetico e teologico, 615.
[7] DM, n.6.
[8] Escreve Romaniuk: «in tutte e tre le parabole della misericordia di Luca, la misericordia è inseparabile dall’alegria, o, per meglio dire, la gioia è la conseguenza o il frutto della misericordia» (K. Romaniuk, La misericórdia nella Bibbia¸ 84).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO E JUBILEU DA MISERICÓRDIA

AOS MINISTROS DO PERDÃO
  

Quando uma pessoa deseja aproximar-se para experimentar a misericórdia de Deus no sacramento da reconciliação, nós, os sacerdotes somos chamados a não afastar ou expulsar alguém. Os sacerdotes não são “proprietários do sacramento”, mas fiéis servidores do perdão divino. Somos chamados a ser no confessionário um sinal concreto da continuidade do amor de Deus que perdoa e salva. O confessionário é para perdoar[1].

Na homilia de ordenação de novos presbíteros, o papa Francisco afirmava: “nunca se cansem de ser misericordioso! Por favor! Tenham aquela capacidade de perdoar que tinha o Senhor, que não veio para condenar, mas para perdoar! Tenham tanta misericórdia! E se lhe vier o escrúpulo de ser muito ‘perdoador’, pensem em um padre santo que vos disse que andava ao tabernáculo e dizia: ‘Senhor, perdoa-a se perdoei demais. Mas, fostes tu que me destes mal exemplo’. Eu vos digo, realmente: me causa tanta dor encontrar gente que não aproxima-se mais do confessionário porque ali foi machucada, repreendida. Sentiram que a porta da Igreja se fechava na cara. Por favor, não façam isto: misericórdia, misericórdia! O bom pastor entra pela porta e a porta da misericórdia são as chagas do Senhor, se vocês não entrarem no vosso ministério pelas chagas do Senhor, não serão bons pastores”[2]. 

“Há muitas pessoas – e, em grande número, jovens – que estão a aproximar-se do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida. Com convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior”[3].

Este é um convite aos cristãos que por vários motivos trascuraram este sacramento, mas é também um apelo aos sacerdotes que possam ser causa de distanciamento dos penitentes. Observava ainda o papa emérito Bento XVI que muitas pessoas não buscam o confessionário, porque muitas vezes, quando o fizeram, não encontraram alguém que os escutassem.

Não esqueçamos: diante de nós não está o pecado, mas o pecador arrependido, um pecador que não quer ser assim, mas não consegue. Uma pessoa que sente o desejo de ser acolhida e perdoada. Um pecador que promete não mais se distanciar da casa do Pai e que, com as poucas forças que encontra, quer fazer de tudo para viver como filho de Deus. Assim, não somos chamados a julgar, com senso de superioridade, como se nós não tivéssemos pecado[4].

Temos ainda outros fatores que acabam por desvalorizar o sacramento e tirando a confiança do penitente no ministro: nos falta tempo para ficarmos no confessionário; não nos empenhamos para ter um lugar adaptado e decente para a celebração deste sacramento nas nossas igrejas, ou ainda nos falta a paciência de confessar no confessionário; não prestamos atenção aos sinais litúrgicos que nos ajudam a entender melhor a graça que será conferida (estola); confessamos sempre com pressa, de modo mecânico e costumeiro; somos por demais formais, legalistas, impessoais; fazemos da confissão um interrogatório jurídico e uma “sala de tortura”[5]; reduzimos a confissão a uma sessão de consultório psicológico, tirando toda a sacralidade; usamos a confissão por outros motivos fora do sacramento[6].

Se queremos que este sacramento dê frutos, é nosso dever como presbíteros entender a dimensão teológica sacramental  daquilo que celebramos e entender que a consciência do homem de hoje é marcada não por conteúdos moralísticos, mas na pessoa de Jesus Cristo.

O Ritual da Penitência, de 1974, após uma década do Concílio Vaticano II, relaciona a penitência com o mistério pascal de Cristo, primeiro sinal sacramental da salvação do homem. A partir desta relação, requer-se um relevo na Palavra de Deus e na dimensão eclesial sacramental7]. Tinha-se a necessidade de um rito mais expressivo, compreensível, adaptado para uma melhor participação e capaz de relacionar as diversas dimensões necessárias nesta prática sacramental, tais como: trinitária e cristológica, eclesial, pessoal e celebrativa.

O parágrafo introdutivo adota dois conceitos de “historia salutis” e de “mysterium reconciliations” para significar a ideia fundamental da absoluta, livre e gratuita iniciativa de Deus que salva a humanidade: “manifestou o Pai a sua misericórdia, reconciliando o mundo consigo em Cristo, pacificando pelo sangue da sua cruz tanto as coisas da terra como as do céu”[8].

 Os penitentes devem poder experimentar já na acolhida que ministro lhe reserva o encontro com a misericórdia de Deus, o encontro com Cristo Salvador. Por este motivo é importante, que o ministro se prepare para a celebração do sacramento da reconciliação, invocando o Espírito Santo para ter luz e caridade[9]. Somente guiado pela ação do Espírito Santo que o ministro poderá acolher com amor e misericórdia o penitente. De fato, o ritual da penitência indica que o ministro ao início da celebração do sacramento deverá acolher o penitente com amor fraterno e saudá-lo cordialmente[10]. Já seguindo estas duas indicações, a preparação e a acolhida por parte do ministro, imagem da maternidade da Igreja, o sacramento da reconciliação assumirá sua capacidade celebrativa, que permitirá desde o início ao penitente experimentar a presença misericordiosa e amável de Deus.

A Igreja é mãe porque sempre gera novos filhos na fé; a Igreja é mãe porque nutre a fé; a Igreja é mãe porque oferece o perdão, gerando nova vida, fruto da conversão. Não podemos correr o risco que o penitente não perceba a presença materna da Igreja que acolhe e ama. Se não acontece esta percepção, a causa da nossa rigidez, causamos um dano grave, em primeiro lugar, para a própria fé, porque impediria o penitente de sentir-se inserido no corpo de Cristo[11].   

O ritual ainda apresenta três formas de celebração deste sacramento, mas nós sacerdotes escolhemos de permanecer ancorados na primeira forma e deixar de lado as duas outras. O liturgista Rinaldo Falsini observa que quem ignora a visão tríplice do sacramento, arranca uma autêntica riqueza de fé e de vida espiritual e permanece fora da Reforma que nos indicou o Concílio.

É recomendável, em particular neste ano da misericórdia, a segunda forma do rito, ou melhor, a celebração penitencial, onde temos a proclamação da Palavra de Deus, a homilia, o exame de consciência e acusa geral dos pecados em forma litânica, o Pai-nosso, a confissão e a absolvição individual. É muito importante reconhecer que o aspecto comunitário desta celebração penitencial não é algo estético ou sonhador, mas foi pensado para recuperar aquilo que tínhamos deste o início e perdemos: a assembleia eclesial é o melhor ambiente onde o pecador pode reconquistar o perdão divino através da mediação, não somente do ministro ordenado, mas também pelo sacerdócio comum praticado pela assembleia na caridade, no testemunho e na oração[12]. Com a privatização da confissão auricular perdemos a dimensão social e eclesial do pecado e a dimensão comunitária do sacramento da penitência.

Desse modo, o pecado do cristão batizado, que se reconhece acolhido e amado como “filho no único Filho” da ternura do Pai, não poderá jamais reduzir-se a uma simples inflação de uma lei abstrata ou a violação de um código, este será sempre pecado de um filho pródigo que reconhece a bondade e os dons do pai, pecado de um filho que sai e afasta-se da família, da comunidade e dos irmãos[13].

Afirma papa Francisco: “a salvação, que Deus nos oferece, é obra da sua misericórdia. Não há ação humana, por melhor que seja, que nos faça merecer tão grande dom. Por pura graça, Deus atrai-nos para nos unir a Si. Envia o seu Espírito aos nossos corações, para nos fazer seus filhos, para nos transformar e tornar capazes de responder com a nossa vida ao seu amor. A Igreja é enviada por Jesus Cristo como sacramento da salvação oferecida por Deus”[14].
 
  Neste âmbito, o confessor, mais que a ciência moral, tem a necessidade de conquistar a ars confessandi junto com a ars medica e a ars consulendi. Mais que juiz, o confessor é médico, precisa ter aquela capacidade de fazer experimentar a misericórdia de Deus, enfaixando as feridas interiores do penitente e colocá-lo nos braços de Cristo, porque somente ele faz crescer no amor[15].

  Ao celebrar o sacramento da Penitência, o sacerdote exerce o ministério do bom Pastor que procura a ovelha perdida: do bom Samaritano que cura as feridas; do Pai que espera pelo filho pródigo e o acolhe no seu regresso; do justo juiz que não faz acepção de pessoas e cujo juízo é, ao mesmo tempo, justo e misericordioso. Em resumo, o sacerdote é sinal e instrumento do amor misericordioso de Deus para com o pecador[16]; é ministro do perdão.


Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
 



[1] Cf. Francisco, homilia na missa com os frades capuchinhos, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 32 (10/02/2016) 8.
[2] Francisco, Homilia na ordenação de novos presbíteros (15/05/2014), www.vatican.va  
[3] Misericordiae Vultus, 17.
[4] Cf. Francisco, Audiência aos missionários da misericórdia, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 33 (11/02/2016) 7.
[5] Evangelii Gaudium, 44.
[6] Cf. Grech, Mario. Giubileo e confessione. Meglio abbondare, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 29 (06/02/2016) 7.
[7] Sottocornola, F. «Les nouveaux rites de la pénitence», in Questions liturgiques 55 (1974) 95.
[8] Ritual da Penitência, n. 1. 
[9] Ritual da Penitência, n.15.
[10] cf. Ritual da Penitência, n.16.
[11] Cf. Francisco, Audiência aos missionários da misericórdia, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 33 (11/02/2016) 7.
[12] Cf. Lumen Gentium, n. 11
[13] Visentin, P. «Penitenza», in D. Sartore, - A.M. Triacca, - C. Cibien, ed., Dizionario di Liturgia, 1482.
[14] Evangelii Guadium, 44.
[15] Cf. Grech, Mario. Giubileo e confessione. Meglio abbondare, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 29 (06/02/2016) 7
[16] Catecismo da Igreja Catolica, n.1465.