segunda-feira, 16 de maio de 2016

A EUCARISTIA É O MEMORIAL DO MISTÉRIO PASCAL

 
Existe uma íntima ligação entre o Mistério Pascal de Cristo e o mistério eucarístico, ou melhor, existe um elo essencial entre a Páscoa e a Eucaristia, pois esta é o lugar sacramental em que a Páscoa de Cristo é dilatada e se torna a Páscoa da Igreja, "a oferta da ressurreição", segundo São Gregório Nazianzeno.

Na última ceia com seus discípulos, a primeira da Igreja, no corpo dado e no sangue derramado, Jesus prefigura o sacrifício da cruz. Na própria instituição da eucaristia já acontece todos os eventos sucessivos: de agonia, paixão, crucificação, da noite fria do sepulcro, da manhã radiosa da páscoa. Desse modo, perpetua-se o sacrifício da cruz até que ele venha e nos confia o memorial da sua morte e ressurreição, tornando-o assim: “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal” (cf. SC, 47).

De fato, não poderia existir alguma memória se não fosse a ressurreição de Cristo. A ressurreição é a manifestação histórica e escatologicamente irreversível da auto-promessa divina ao mundo, como afirma Karl Rahner. Enquanto no passado a mensagem da páscoa tocava principalmente a paixão e morte de Jesus – e o mistério da ressurreição era estudado somente como triunfo pessoal de Cristo sobre os seus inimigos, do início do século passado a ressurreição ocupa um renovado interesse como evento salvífico e fundante da nossa fé.

A morte, a sepultura e a vida eterna faz parte de um só mistério. Tal afirmação coloca em crise toda a reconstrução medieval e moderna do tríduo e do tempo pascal, que o duplicavam, criando um “tríduo da paixão” e depois um “tríduo da ressurreição”. Grande parte da nossa espiritualidade, da nossa arte, da nossa liturgia foi construída em torno a esta hipótese de separação/ oposição entre morte e ressurreição (cf. Andrea Grillo).  

Compreender a unidade do mistério nos ajudará a assumir as palavras do apóstolo Paulo que diz: “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (ICor 15,17). Com isso, devemos tomar consciência que atualizamos o memorial da paixão, morte, ressurreição e manifestação gloriosa do Senhor Jesus quando aclamamos:
 
Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!
Salvador do mundo, salvai-nos! Vós que nos libertastes pela cruz e ressurreição.
Toda vez que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa vinda.

 Assim, quando após a narração das palavras de Jesus na última ceia (“Tomai, todos, e comei; [...] Tomai, todos, e bebei”), convidados pelo presidente da celebração a responder ao ‘mistério da fé’, recordamos a íntima ligação entre o sacrifício da cruz e sua renovação sacramental, a partir da memória ritual, na celebração da Eucaristia (cf. IGMR, n.1). Consequentemente, a Eucaristia é ao mesmo tempo um sacrifício de louvor, ação de graças, propiciação e expiação e, especialmente, o memorial da Páscoa.

A grande oração, ainda, continua ao afirmar essa íntima ligação: “Celebrando agora, ó Pai, a memória do vosso Filho, da sua paixão que nos salva, da sua gloriosa ressurreição e da sua ascensão ao céu; e enquanto esperamos a sua nova vinda, nós vos oferecemos em ação de graças este sacrifício de vida e santidade” (cf. Oração Eucarística III). A cruz (paixão e morte), a ressurreição e a segunda vinda é o coração da memória que celebramos. É o coração da Páscoa do Senhor. Este coração, este memorial, é ainda a regula fidei, ou melhor, a lex orandi que se torna lex credendi e lex vivendi.

O evangelista Lucas, na sua narração sobre os discípulos de Emaús, nos permite refletir sobre este vínculo existente entre a morte de Jesus, sua páscoa, e a fração do pão (cf. Lc 24, 13-35). Jesus estando com seus discípulos, escutou as desilusões e os dramas que a sua morte havido causado naqueles que o seguiam. Acompanhando-os ao longo do caminho, “explicou-lhes as Escrituras e tudo o que Lhe dizia respeito”. Já na caminhada com Jesus os discípulos começam a ver a morte de Jesus de um modo novo. O que acontecera naqueles dias já não aparece como um fracasso, mas cumprimento de um novo início. Todavia, mesmo estas palavras não parecem ainda suficientes para os dois discípulos. O Evangelho de Lucas diz que “abriram-lhes os olhos e reconheceram-No” somente quando Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes deu. Antes, “os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem”.

A presença de Jesus, primeiro com as palavras e depois com o gesto de partir o pão, tornou possível aos discípulos reconhecê-Lo e apreciar de modo novo tudo o que tinham vivido anteriormente com Ele. Conseguiram ver de modo novo a ceia do Senhor, o seu sacrifício, a Eucaristia (cf. Verbum Domini, n. 61).

Desse modo, o mistério eucarístico, na celebração dominical, é o lugar onde a Igreja sempre procurar obedecer às palavras dadas pelo Senhor: “Fazei isto em memória de mim”. Cristo, ao pedir isso aos seus discípulos, realiza uma ação ritual simbólica que une a páscoa antiga, superando-a, com a nova páscoa, dando-lhe nova interpretação.

A eucaristia não é um sacrifício independente, eficaz por ela mesma, nem é repetição do sacrifício da cruz. O pão dividido é sacrifício enquanto presença do Cristo crucificado, glorioso e intercessor. Existe assim uma única oblação do corpo de Jesus, mas em três aspectos: o sacrifício único e perfeito de Cristo na cruz, ato histórico, fundamento da salvação; o sacrifício celeste e perpétuo de Cristo na sua intercessão, ato eterno; o sacrifício memorial de Cristo na eucaristia da Igreja, sacramento da salvação. Igualmente, todos os sacramentos não são mais do que a aplicação da paixão de Cristo naqueles que os recebem. Uma coisa é, de fato, repetir a paixão de Cristo, outra coisa é repetir o memorial e a aplicação da paixão de Cristo.

Cada sacramento é uma manifestação eclesial privilegiada da presença da Páscoa de Cristo na história humana e, desse modo, a manifestação eclesial privilegiada do amor divino de Cristo pelos homens (dom da graça) e do amor humano de Cristo por Deus (ato de culto). Então, cada sacramento é evento pascal enquanto é a maior manifestação e atuação da estrutura sacramental da Igreja (cf. E. Schillebeeckx).

O memorial não é somente “representação” e “atualização”, mas também antecipação do retorno glorioso de Cristo e do seu reino. Através dessa dimensão escatológica a Igreja manifesta ao mundo como sinal profético e com renovada esperança, no presente, a realização do reino participando na obra de Cristo e do Espírito.

O memorial da eucaristia é o meio, por excelência, que Cristo deixou a Igreja que vive para encontra-lo e fazer a experiência do reino que vem. De fato, enquanto celebramos o memorial da páscoa, a Igreja recebe realmente o Cristo e se aproxima do reino que vem. Então, não só participa da oração de Cristo diante do Pai, para acelerar o dia do retorno glorioso, mas na própria eucaristia já chega, pelo mistério dos ritos e símbolos, ao seu Senhor e ao seu reino.  

É essa a força que opera na páscoa. A Igreja tem sentido somente quando perdoa, quando oferece o pão. E quando reflete ou faz teologia deve recordar sempre que não existe nada melhor para exprimir do que a potência da ressurreição. Cada palavra dita deve abrir, libertar alguém, fazer alcançar a inteligência de Deus, no seu mistério mais profundo, que é mistério da existência, do ser e do amor (cf. A. Gouzes).
 
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.