Existe uma íntima
ligação entre o Mistério Pascal de Cristo e o mistério eucarístico, ou melhor, existe um elo
essencial entre a Páscoa e a Eucaristia, pois esta é o lugar sacramental em que
a Páscoa de Cristo é dilatada e se torna a Páscoa da Igreja, "a oferta da
ressurreição", segundo São Gregório Nazianzeno.
Na última ceia com seus discípulos, a primeira da Igreja, no corpo dado e no sangue derramado, Jesus prefigura o sacrifício da cruz. Na própria instituição da eucaristia já acontece todos os eventos sucessivos: de agonia, paixão, crucificação, da noite fria do sepulcro, da manhã radiosa da páscoa. Desse modo, perpetua-se o sacrifício da cruz até que ele venha e nos confia o memorial da sua morte e ressurreição, tornando-o assim: “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal” (cf. SC, 47).
Na última ceia com seus discípulos, a primeira da Igreja, no corpo dado e no sangue derramado, Jesus prefigura o sacrifício da cruz. Na própria instituição da eucaristia já acontece todos os eventos sucessivos: de agonia, paixão, crucificação, da noite fria do sepulcro, da manhã radiosa da páscoa. Desse modo, perpetua-se o sacrifício da cruz até que ele venha e nos confia o memorial da sua morte e ressurreição, tornando-o assim: “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal” (cf. SC, 47).
De fato, não poderia
existir alguma memória se não fosse a ressurreição de Cristo. A ressurreição é
a manifestação histórica e escatologicamente irreversível da auto-promessa
divina ao mundo, como afirma Karl Rahner. Enquanto no passado a mensagem da
páscoa tocava principalmente a paixão e morte de Jesus – e o mistério da
ressurreição era estudado somente como triunfo pessoal de Cristo sobre os seus
inimigos, do início do século passado a ressurreição ocupa um renovado
interesse como evento salvífico e fundante da nossa fé.
A morte, a sepultura e
a vida eterna faz parte de um só mistério. Tal afirmação coloca em crise toda a
reconstrução medieval e moderna do tríduo e do tempo pascal, que o duplicavam,
criando um “tríduo da paixão” e depois um “tríduo da ressurreição”. Grande
parte da nossa espiritualidade, da nossa arte, da nossa liturgia foi construída
em torno a esta hipótese de separação/ oposição entre morte e ressurreição (cf.
Andrea Grillo).
Compreender a unidade
do mistério nos ajudará a assumir as palavras do apóstolo Paulo que diz: “se
Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (ICor 15,17). Com isso, devemos tomar
consciência que atualizamos o memorial da paixão, morte, ressurreição e
manifestação gloriosa do Senhor Jesus quando aclamamos:
Anunciamos, Senhor, a vossa morte e
proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!
Salvador do mundo,
salvai-nos! Vós que nos libertastes pela cruz e ressurreição.
Toda vez que comemos deste pão e bebemos
deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto esperamos a vossa
vinda.
A grande oração, ainda, continua ao afirmar essa íntima
ligação: “Celebrando
agora, ó Pai, a memória do vosso Filho, da sua paixão que nos salva, da sua
gloriosa ressurreição e da sua ascensão ao céu; e enquanto esperamos a sua nova
vinda, nós vos oferecemos em ação de graças este sacrifício de vida e santidade” (cf. Oração Eucarística III). A cruz (paixão e morte), a ressurreição e a
segunda vinda é o coração da memória que celebramos. É o coração da Páscoa
do Senhor. Este coração, este memorial, é ainda a regula fidei, ou melhor, a lex
orandi que se torna lex credendi e
lex vivendi.
O evangelista Lucas, na
sua narração sobre os discípulos de Emaús, nos permite refletir sobre este vínculo
existente entre a morte de Jesus, sua páscoa, e a fração do pão (cf. Lc 24,
13-35). Jesus estando com seus discípulos, escutou as desilusões e os dramas
que a sua morte havido causado naqueles que o seguiam. Acompanhando-os ao longo
do caminho, “explicou-lhes as Escrituras
e tudo o que Lhe dizia respeito”. Já na caminhada com Jesus os discípulos começam
a ver a morte de Jesus de um modo novo. O que acontecera naqueles dias já não
aparece como um fracasso, mas cumprimento de um novo início. Todavia, mesmo
estas palavras não parecem ainda suficientes para os dois discípulos. O Evangelho de Lucas diz que “abriram-lhes os olhos e reconheceram-No”
somente quando Jesus tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes deu. Antes, “os seus olhos estavam impedidos de O
reconhecerem”.
A presença de Jesus,
primeiro com as palavras e depois com o gesto de partir o pão, tornou possível
aos discípulos reconhecê-Lo e apreciar de modo novo tudo o que tinham vivido
anteriormente com Ele. Conseguiram ver de modo novo a ceia do Senhor, o seu
sacrifício, a Eucaristia (cf. Verbum
Domini, n. 61).
Desse modo, o mistério
eucarístico, na celebração dominical, é o lugar onde a Igreja sempre procurar obedecer
às palavras dadas pelo Senhor: “Fazei isto
em memória de mim”. Cristo, ao pedir isso aos seus discípulos, realiza uma
ação ritual simbólica que une a páscoa antiga, superando-a, com a nova páscoa,
dando-lhe nova interpretação.
A eucaristia não é um
sacrifício independente, eficaz por ela mesma, nem é repetição do sacrifício da
cruz. O pão dividido é sacrifício enquanto presença do Cristo crucificado,
glorioso e intercessor. Existe assim uma única oblação do corpo de Jesus, mas
em três aspectos: o sacrifício único e perfeito de Cristo na cruz, ato
histórico, fundamento da salvação; o sacrifício celeste e perpétuo de Cristo na
sua intercessão, ato eterno; o sacrifício memorial de Cristo na eucaristia da
Igreja, sacramento da salvação. Igualmente, todos os sacramentos não são mais
do que a aplicação da paixão de Cristo naqueles que os recebem. Uma coisa é, de
fato, repetir a paixão de Cristo, outra coisa é repetir o memorial e a
aplicação da paixão de Cristo.
Cada sacramento é uma
manifestação eclesial privilegiada da presença da Páscoa de Cristo na história
humana e, desse modo, a manifestação eclesial privilegiada do amor divino de
Cristo pelos homens (dom da graça) e do amor humano de Cristo por Deus (ato de
culto). Então, cada sacramento é evento pascal enquanto é a maior manifestação
e atuação da estrutura sacramental da Igreja (cf. E. Schillebeeckx).
O memorial não é
somente “representação” e “atualização”, mas também antecipação do retorno
glorioso de Cristo e do seu reino. Através dessa dimensão escatológica a Igreja
manifesta ao mundo como sinal profético e com renovada esperança, no presente,
a realização do reino participando na obra de Cristo e do Espírito.
O memorial da
eucaristia é o meio, por excelência, que Cristo deixou a Igreja que vive para
encontra-lo e fazer a experiência do reino que vem. De fato, enquanto
celebramos o memorial da páscoa, a Igreja recebe realmente o Cristo e se
aproxima do reino que vem. Então, não só participa da oração de Cristo diante
do Pai, para acelerar o dia do retorno glorioso, mas na própria eucaristia já
chega, pelo mistério dos ritos e símbolos, ao seu Senhor e ao seu reino.
É essa a força que
opera na páscoa. A Igreja tem sentido somente quando perdoa, quando oferece o
pão. E quando reflete ou faz teologia deve recordar sempre que não existe nada
melhor para exprimir do que a potência da ressurreição. Cada palavra dita deve
abrir, libertar alguém, fazer alcançar a inteligência de Deus, no seu mistério
mais profundo, que é mistério da existência, do ser e do amor (cf. A. Gouzes).
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
