quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO E JUBILEU DA MISERICÓRDIA

AOS MINISTROS DO PERDÃO
  

Quando uma pessoa deseja aproximar-se para experimentar a misericórdia de Deus no sacramento da reconciliação, nós, os sacerdotes somos chamados a não afastar ou expulsar alguém. Os sacerdotes não são “proprietários do sacramento”, mas fiéis servidores do perdão divino. Somos chamados a ser no confessionário um sinal concreto da continuidade do amor de Deus que perdoa e salva. O confessionário é para perdoar[1].

Na homilia de ordenação de novos presbíteros, o papa Francisco afirmava: “nunca se cansem de ser misericordioso! Por favor! Tenham aquela capacidade de perdoar que tinha o Senhor, que não veio para condenar, mas para perdoar! Tenham tanta misericórdia! E se lhe vier o escrúpulo de ser muito ‘perdoador’, pensem em um padre santo que vos disse que andava ao tabernáculo e dizia: ‘Senhor, perdoa-a se perdoei demais. Mas, fostes tu que me destes mal exemplo’. Eu vos digo, realmente: me causa tanta dor encontrar gente que não aproxima-se mais do confessionário porque ali foi machucada, repreendida. Sentiram que a porta da Igreja se fechava na cara. Por favor, não façam isto: misericórdia, misericórdia! O bom pastor entra pela porta e a porta da misericórdia são as chagas do Senhor, se vocês não entrarem no vosso ministério pelas chagas do Senhor, não serão bons pastores”[2]. 

“Há muitas pessoas – e, em grande número, jovens – que estão a aproximar-se do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida. Com convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior”[3].

Este é um convite aos cristãos que por vários motivos trascuraram este sacramento, mas é também um apelo aos sacerdotes que possam ser causa de distanciamento dos penitentes. Observava ainda o papa emérito Bento XVI que muitas pessoas não buscam o confessionário, porque muitas vezes, quando o fizeram, não encontraram alguém que os escutassem.

Não esqueçamos: diante de nós não está o pecado, mas o pecador arrependido, um pecador que não quer ser assim, mas não consegue. Uma pessoa que sente o desejo de ser acolhida e perdoada. Um pecador que promete não mais se distanciar da casa do Pai e que, com as poucas forças que encontra, quer fazer de tudo para viver como filho de Deus. Assim, não somos chamados a julgar, com senso de superioridade, como se nós não tivéssemos pecado[4].

Temos ainda outros fatores que acabam por desvalorizar o sacramento e tirando a confiança do penitente no ministro: nos falta tempo para ficarmos no confessionário; não nos empenhamos para ter um lugar adaptado e decente para a celebração deste sacramento nas nossas igrejas, ou ainda nos falta a paciência de confessar no confessionário; não prestamos atenção aos sinais litúrgicos que nos ajudam a entender melhor a graça que será conferida (estola); confessamos sempre com pressa, de modo mecânico e costumeiro; somos por demais formais, legalistas, impessoais; fazemos da confissão um interrogatório jurídico e uma “sala de tortura”[5]; reduzimos a confissão a uma sessão de consultório psicológico, tirando toda a sacralidade; usamos a confissão por outros motivos fora do sacramento[6].

Se queremos que este sacramento dê frutos, é nosso dever como presbíteros entender a dimensão teológica sacramental  daquilo que celebramos e entender que a consciência do homem de hoje é marcada não por conteúdos moralísticos, mas na pessoa de Jesus Cristo.

O Ritual da Penitência, de 1974, após uma década do Concílio Vaticano II, relaciona a penitência com o mistério pascal de Cristo, primeiro sinal sacramental da salvação do homem. A partir desta relação, requer-se um relevo na Palavra de Deus e na dimensão eclesial sacramental7]. Tinha-se a necessidade de um rito mais expressivo, compreensível, adaptado para uma melhor participação e capaz de relacionar as diversas dimensões necessárias nesta prática sacramental, tais como: trinitária e cristológica, eclesial, pessoal e celebrativa.

O parágrafo introdutivo adota dois conceitos de “historia salutis” e de “mysterium reconciliations” para significar a ideia fundamental da absoluta, livre e gratuita iniciativa de Deus que salva a humanidade: “manifestou o Pai a sua misericórdia, reconciliando o mundo consigo em Cristo, pacificando pelo sangue da sua cruz tanto as coisas da terra como as do céu”[8].

 Os penitentes devem poder experimentar já na acolhida que ministro lhe reserva o encontro com a misericórdia de Deus, o encontro com Cristo Salvador. Por este motivo é importante, que o ministro se prepare para a celebração do sacramento da reconciliação, invocando o Espírito Santo para ter luz e caridade[9]. Somente guiado pela ação do Espírito Santo que o ministro poderá acolher com amor e misericórdia o penitente. De fato, o ritual da penitência indica que o ministro ao início da celebração do sacramento deverá acolher o penitente com amor fraterno e saudá-lo cordialmente[10]. Já seguindo estas duas indicações, a preparação e a acolhida por parte do ministro, imagem da maternidade da Igreja, o sacramento da reconciliação assumirá sua capacidade celebrativa, que permitirá desde o início ao penitente experimentar a presença misericordiosa e amável de Deus.

A Igreja é mãe porque sempre gera novos filhos na fé; a Igreja é mãe porque nutre a fé; a Igreja é mãe porque oferece o perdão, gerando nova vida, fruto da conversão. Não podemos correr o risco que o penitente não perceba a presença materna da Igreja que acolhe e ama. Se não acontece esta percepção, a causa da nossa rigidez, causamos um dano grave, em primeiro lugar, para a própria fé, porque impediria o penitente de sentir-se inserido no corpo de Cristo[11].   

O ritual ainda apresenta três formas de celebração deste sacramento, mas nós sacerdotes escolhemos de permanecer ancorados na primeira forma e deixar de lado as duas outras. O liturgista Rinaldo Falsini observa que quem ignora a visão tríplice do sacramento, arranca uma autêntica riqueza de fé e de vida espiritual e permanece fora da Reforma que nos indicou o Concílio.

É recomendável, em particular neste ano da misericórdia, a segunda forma do rito, ou melhor, a celebração penitencial, onde temos a proclamação da Palavra de Deus, a homilia, o exame de consciência e acusa geral dos pecados em forma litânica, o Pai-nosso, a confissão e a absolvição individual. É muito importante reconhecer que o aspecto comunitário desta celebração penitencial não é algo estético ou sonhador, mas foi pensado para recuperar aquilo que tínhamos deste o início e perdemos: a assembleia eclesial é o melhor ambiente onde o pecador pode reconquistar o perdão divino através da mediação, não somente do ministro ordenado, mas também pelo sacerdócio comum praticado pela assembleia na caridade, no testemunho e na oração[12]. Com a privatização da confissão auricular perdemos a dimensão social e eclesial do pecado e a dimensão comunitária do sacramento da penitência.

Desse modo, o pecado do cristão batizado, que se reconhece acolhido e amado como “filho no único Filho” da ternura do Pai, não poderá jamais reduzir-se a uma simples inflação de uma lei abstrata ou a violação de um código, este será sempre pecado de um filho pródigo que reconhece a bondade e os dons do pai, pecado de um filho que sai e afasta-se da família, da comunidade e dos irmãos[13].

Afirma papa Francisco: “a salvação, que Deus nos oferece, é obra da sua misericórdia. Não há ação humana, por melhor que seja, que nos faça merecer tão grande dom. Por pura graça, Deus atrai-nos para nos unir a Si. Envia o seu Espírito aos nossos corações, para nos fazer seus filhos, para nos transformar e tornar capazes de responder com a nossa vida ao seu amor. A Igreja é enviada por Jesus Cristo como sacramento da salvação oferecida por Deus”[14].
 
  Neste âmbito, o confessor, mais que a ciência moral, tem a necessidade de conquistar a ars confessandi junto com a ars medica e a ars consulendi. Mais que juiz, o confessor é médico, precisa ter aquela capacidade de fazer experimentar a misericórdia de Deus, enfaixando as feridas interiores do penitente e colocá-lo nos braços de Cristo, porque somente ele faz crescer no amor[15].

  Ao celebrar o sacramento da Penitência, o sacerdote exerce o ministério do bom Pastor que procura a ovelha perdida: do bom Samaritano que cura as feridas; do Pai que espera pelo filho pródigo e o acolhe no seu regresso; do justo juiz que não faz acepção de pessoas e cujo juízo é, ao mesmo tempo, justo e misericordioso. Em resumo, o sacerdote é sinal e instrumento do amor misericordioso de Deus para com o pecador[16]; é ministro do perdão.


Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
 



[1] Cf. Francisco, homilia na missa com os frades capuchinhos, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 32 (10/02/2016) 8.
[2] Francisco, Homilia na ordenação de novos presbíteros (15/05/2014), www.vatican.va  
[3] Misericordiae Vultus, 17.
[4] Cf. Francisco, Audiência aos missionários da misericórdia, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 33 (11/02/2016) 7.
[5] Evangelii Gaudium, 44.
[6] Cf. Grech, Mario. Giubileo e confessione. Meglio abbondare, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 29 (06/02/2016) 7.
[7] Sottocornola, F. «Les nouveaux rites de la pénitence», in Questions liturgiques 55 (1974) 95.
[8] Ritual da Penitência, n. 1. 
[9] Ritual da Penitência, n.15.
[10] cf. Ritual da Penitência, n.16.
[11] Cf. Francisco, Audiência aos missionários da misericórdia, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 33 (11/02/2016) 7.
[12] Cf. Lumen Gentium, n. 11
[13] Visentin, P. «Penitenza», in D. Sartore, - A.M. Triacca, - C. Cibien, ed., Dizionario di Liturgia, 1482.
[14] Evangelii Guadium, 44.
[15] Cf. Grech, Mario. Giubileo e confessione. Meglio abbondare, in L’Osservatore Romano, ano CLVI, n. 29 (06/02/2016) 7
[16] Catecismo da Igreja Catolica, n.1465.



 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

A FORÇA SACRAMENTAL DA PALAVRA DE DEUS


"Assim como a chuva e a neve desce dos céus
e para lá não tornam sem fazer brotar a semente
e garantir o pão a quem tem fome,
assim será a palavra que sair da minha boca;
ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz"
(cf, Is 55, 10-11).

 
 
A “Palavra é viva e eficaz” (cf. Hb 4,12-13). Este texto rico e singular, garante-nos que a Palavra tem a força que transcende o nosso modo de pensar e que ocupa nossa história, espaço e tempo. A força que tem um nome e é uma pessoa que manifesta o rosto misericordioso do Pai. É a própria palavra do Pai encarnada, Jesus Cristo.

Por ser Palavra encarnada do Pai, os atos e as palavras de Jesus tem força de salvação é  palavra redentora, possui força sacramental: “Ele é a vossa palavra viva, pela qual tudo criastes”[1].  

A Palavra eterna não se exprime primariamente num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua história, única e singular é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade. Daqui se compreende por que, “no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, um rumo decisivo”[2].

A liturgia é o lugar privilegiado onde Deus fala-nos no momento presente: fala hoje ao seu povo que escuta e responde. Cristo, de tal modo, está presente na sua Palavra, que na Igreja quando se proclama a Sagrada Escritura é Ele mesmo quem fala[3]. Desse modo, a Palavra é considerada momento de atuação e atualização do mistério de Cristo.

A palavra de Deus é comunicação de salvação, enquanto proclamação eficaz da economia divina. A palavra, atuada e atualizada no hoje da nossa salvação, é também a revelação da ação potente do Espírito Santo. A presença de Cristo é vista como presença pessoal e dinâmica no seu mais profundo mistério.

A palavra é comunicação e ação – não apenas transmissão de mensagem – pois possui uma força eficaz que garante, atualiza e dá vida.

Assim, a Palavra de Deus não é um conjunto de frases ocas, vagas e estéreis, ‘que entram por um ouvido e saem pelo outro’ sem causar impacto de conversão na vida daqueles que a escutam. Se não existe impacto, talvez estamos escutando e aprendendo “palavras” que não estão nos ajudando a entrar numa relação profunda com a Palavra eterna de Deus.

A ritualidade que acompanha a Liturgia da Palavra, sobretudo na proclamação do Evangelho, é expressão clara da força sacramental desta Palavra. O presidente da celebração, após proclamar o Evangelho e beijar o livro sagrado, reza em silêncio: “que as palavras do Santo Evangelho perdoem os nossos pecados”. Nesta oração podemos perceber claramente a força de salvação, e por isso, sacramental, da Palavra de Deus. De fato, é uma Palavra viva e eficaz.

A palavra de Deus se faz carne sacramental no evento eucarístico e realiza plenamente a Sagrada Escritura. A Eucaristia é o princípio hermenêutico da Escritura e a Escritura é a iluminação e explicação do mistério eucarístico. Tanto a Escritura, quanto a Eucaristia são “pão de vida”, segundo a bela expressão conciliar: “é preciso nutrir-se do pão de vida seja na mesa da palavra de Deus seja na mesa de comunhão com Cristo”[4].

Alimentada nessas duas mesas, a Igreja, por meio da Palavra de Deus, instrui-se mais pois anuncia a aliança divina e pela Eucaristia, santifica-se plenamente pois renova esta mesma nova e eterna aliança. Numa, recorda-se a história da salvação com palavras e na outra a mesma história se expressa por meio de sinais sacramentais da Liturgia. Portanto, convém lembrar sempre que a Palavra divina que a Igreja lê e anuncia na Liturgia, conduz, como a seu próprio fim, ao sacrifício da aliança e ao banquete da graça, isto é, à Eucaristia[5].

Ainda que esta Palavra tenha penetrado em nosso coração uma única vez na vida, mas essa vez nos garantiu a compreensão da salvação e a permanência, na busca e proclamação desta salvação.

A Palavra de Deus “penetra”, “rompe” e "fundamenta" a vida cristã.

Tudo o que a Igreja é nasce da relação com esta Palavra. Isso não significa que ela depende, em primeiro lugar, do "significado" das palavras, nem da explicação de todos os seus aspectos pois isto seria justificar a Palavra e não se deixar justificar por ela.

Na verdade, esta palavra é tão forte, tão doce e inebriante, que sempre mexe com toda a Igreja, sua ordem e seus programas, suas boas intenções e suas perspectivas. A Palavra da Escritura torna-se vida fazendo-se corpo nas palavras do sacramento. Dessa forma, ela foge de uma pretensão “gnostica” de dominar o texto que, quando não é mais Palavra, é somente “significado”, podendo tornar-se prisioneiro de quem lê deixando de ser texto inspirado, e tornando-se ideologia, fundamentalismo e relativismo[6].

Assim, a relação entre o texto sagrado e a assembleia litúrgica da Igreja não é somente de atualidade, mas também de identidade; não é apenas hermenêutico, mas simbólico. De fato, o texto em questão não é leitura de um poema ou de uma oração para alimentar a vida cristã e espiritual, mas leitura de textos que fundamentam a identidade cristã[7].

A Palavra, Evangelho encarnado na liturgia da vida, nos convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos[8]. Desse modo, a força sacramental da Palavra pode fortalecer a nossa vida cristã, garantindo eficácia, ajudando-nos a “pensar com o coração”, fortalecendo nosso testemunho e nossa fidelidade à comunidade que encontra sua plenitude na celebração comum da Palavra e do Sacramento. A Palavra possui a força sacramental que transcende o nosso modo de pensar.
 
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
 
 
 
 
Artigo publicado: Marques, L.F. A Força sacramental da Palavra de Deus, in: Revista de Liturgia 253 (jan/fev 2016) 25-26.

  
 


[1] Cf. Prefácio da Oração Eucarística II.
[2] Verbum Domini, n. 11.
[3] Cf. Sacrosanctum Concilium, n.7.
[4] Cf. Dei verbum, n.21.
[5] Introdução ao Lecionário da Missa, n.10.
[6] Cf. A. Grillo, Il lavoro della Parola nella liturgia: verità dimenticate ed evidenze sospette.
[7] Cf.  L.M Chauvet, L’umanità dei sacramenti. Magnano: Edizioni Qiqajon, 2010. p.39.
[8] Cf. Evangelii Gaudium, n.39.