"Assim como a chuva e a neve desce dos céus
e para lá não tornam sem fazer brotar a semente
e garantir
o pão a quem tem fome,
assim será a palavra que sair da minha boca;
ela não
voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz"
(cf, Is 55, 10-11).
A “Palavra é viva e eficaz” (cf. Hb 4,12-13).
Este texto rico e singular, garante-nos que a Palavra tem a força que
transcende o nosso modo de pensar e que ocupa nossa história, espaço e tempo. A
força que tem um nome e é uma pessoa que manifesta o rosto misericordioso do
Pai. É a própria palavra do Pai encarnada, Jesus Cristo.
Por ser Palavra encarnada do Pai, os atos e as
palavras de Jesus tem força de salvação é palavra redentora, possui força sacramental:
“Ele é a vossa palavra viva, pela qual tudo criastes”[1].
A Palavra eterna não se exprime primariamente
num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria
pessoa de Jesus. A sua história, única e singular é a palavra definitiva que
Deus diz à humanidade. Daqui se compreende por que, “no início do ser cristão,
não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um
acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, um
rumo decisivo”[2].
A liturgia é o lugar privilegiado onde Deus
fala-nos no momento presente: fala hoje ao seu povo que escuta e responde. Cristo, de tal modo, está presente na sua Palavra,
que na Igreja quando se proclama a Sagrada Escritura é Ele mesmo quem fala[3]. Desse modo, a
Palavra é considerada momento de atuação e atualização do mistério de Cristo.
A palavra de Deus é comunicação de salvação,
enquanto proclamação eficaz da economia divina. A palavra, atuada e atualizada
no hoje da nossa salvação, é também a revelação da ação potente do Espírito
Santo. A presença de Cristo é vista como presença pessoal e dinâmica no seu
mais profundo mistério.
A palavra é comunicação e ação – não apenas
transmissão de mensagem – pois possui uma força eficaz que garante, atualiza e
dá vida.
Assim, a Palavra de Deus não é um conjunto de
frases ocas, vagas e estéreis, ‘que entram por um ouvido e saem pelo outro’ sem
causar impacto de conversão na vida daqueles que a escutam. Se não existe
impacto, talvez estamos escutando e aprendendo “palavras” que não estão nos
ajudando a entrar numa relação profunda com a Palavra eterna de Deus.
A ritualidade que acompanha a Liturgia da
Palavra, sobretudo na proclamação do Evangelho, é expressão clara da força
sacramental desta Palavra. O presidente da celebração, após proclamar o
Evangelho e beijar o livro sagrado, reza em silêncio: “que as palavras do Santo
Evangelho perdoem os nossos pecados”. Nesta oração podemos perceber claramente a
força de salvação, e por isso, sacramental, da Palavra de Deus. De fato, é uma
Palavra viva e eficaz.
A palavra de Deus se faz carne sacramental no
evento eucarístico e realiza plenamente a Sagrada Escritura. A Eucaristia é o
princípio hermenêutico da Escritura e a Escritura é a iluminação e explicação
do mistério eucarístico. Tanto a Escritura, quanto a Eucaristia são “pão de
vida”, segundo a bela expressão conciliar: “é preciso nutrir-se do pão de vida
seja na mesa da palavra de Deus seja na mesa de comunhão com Cristo”[4].
Alimentada nessas duas mesas, a Igreja, por
meio da Palavra de Deus, instrui-se mais pois anuncia a aliança divina e pela
Eucaristia, santifica-se plenamente pois renova esta mesma nova e eterna
aliança. Numa, recorda-se a história da salvação com palavras e na outra a
mesma história se expressa por meio de sinais sacramentais da Liturgia.
Portanto, convém lembrar sempre que a Palavra divina que a Igreja lê e anuncia
na Liturgia, conduz, como a seu próprio fim, ao sacrifício da aliança e ao
banquete da graça, isto é, à Eucaristia[5].
Ainda
que esta Palavra tenha penetrado em nosso coração uma única vez na vida, mas
essa vez nos garantiu a compreensão da salvação e a permanência, na busca e
proclamação desta salvação.
A Palavra de Deus
“penetra”, “rompe” e "fundamenta" a vida cristã.
Tudo o que a Igreja é
nasce da relação com esta Palavra. Isso não significa que ela depende, em
primeiro lugar, do "significado" das palavras, nem da explicação de
todos os seus aspectos pois isto seria justificar a Palavra e não se deixar
justificar por ela.
Na verdade, esta
palavra é tão forte, tão doce e inebriante, que sempre mexe com toda a Igreja,
sua ordem e seus programas, suas boas intenções e suas perspectivas. A Palavra
da Escritura torna-se vida fazendo-se corpo nas palavras do sacramento. Dessa
forma, ela foge de uma pretensão “gnostica” de dominar o texto que, quando não
é mais Palavra, é somente “significado”, podendo tornar-se prisioneiro de quem
lê deixando de ser texto inspirado, e tornando-se ideologia, fundamentalismo e
relativismo[6].
Assim, a relação entre
o texto sagrado e a assembleia litúrgica da Igreja não é somente de atualidade,
mas também de identidade; não é apenas hermenêutico, mas simbólico. De fato, o
texto em questão não é leitura de um poema ou de uma oração para alimentar a
vida cristã e espiritual, mas leitura de textos que fundamentam a identidade
cristã[7].
A
Palavra, Evangelho encarnado na liturgia da vida, nos convida, antes de tudo, a
responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de nós
mesmos para procurar o bem de todos[8].
Desse modo, a força sacramental da Palavra pode fortalecer a nossa vida cristã,
garantindo eficácia, ajudando-nos a “pensar com o coração”, fortalecendo nosso
testemunho e nossa fidelidade à comunidade que encontra sua plenitude na
celebração comum da Palavra e do Sacramento. A Palavra possui a força
sacramental que transcende o nosso modo de pensar.
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
Artigo publicado: Marques, L.F.
A Força sacramental da Palavra de Deus, in: Revista de Liturgia 253
(jan/fev 2016) 25-26.
[1] Cf. Prefácio da Oração Eucarística
II.
[2] Verbum Domini, n. 11.
[3] Cf. Sacrosanctum Concilium,
n.7.
[4] Cf. Dei verbum, n.21.
[5] Introdução ao Lecionário da Missa,
n.10.
[6] Cf. A. Grillo, Il lavoro della
Parola nella liturgia: verità dimenticate ed evidenze sospette.
[7] Cf. L.M
Chauvet, L’umanità dei sacramenti.
Magnano: Edizioni Qiqajon, 2010. p.39.
[8] Cf. Evangelii Gaudium, n.39.

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