segunda-feira, 21 de março de 2016

O TRÍDUO PASCAL: A PÁSCOA CELEBRADA EM TRÊS DIAS E EM TRÊS GESTOS SIMBÓLICOS-RITUAIS


A descida de Cristo aos infernos onde toma pelas mãos Adão e Eva
para traze-los à vida (Igreja da S. Trindade - Monte Argentario - Italia).
 
Depois de 40 dias de preparação pela oração, jejum e esmola “viveremos” o porquê nos preparamos para celebrar. É o Mistério de Cristo consagrado em três dias numa semana diferente que chamamos de “santa”, pois nela celebramos os mistérios de nossa salvação.

Estamos diante da “perfeita obra da redenção”, ou seja, do projeto de Deus que foi realizado em Jesus através do Mistério de sua Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão, em que “morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida[1].

Celebrar essa liturgia é atualizar esse mistério, não apenas reduzindo-o a recordação de um fato salvífico e histórico, mas o tornando presente pela riqueza da nossa fé. Esses dias são consagrados através de ritos e gestos, de orações, de textos, de cantos, de momentos de silêncio e adoração. De fato, o desejo da Igreja é que os cristãos não entrem neste Mistério de Fé como “estranhos ou espectadores mudos, mas participem ativamente da ação sagrada, [...] por meio dos ritos e das orações[2].

As equipes de liturgia, sobretudo, os coordenadores e comentaristas, são convidados a deixarem os ritos falarem por si mesmos. A comunidade deve fazer sua experiência de celebrar não explicando a riqueza de cada gesto ou símbolo utilizado. O comentário reduz uma experiência comunitária a uma experiência individual e, muitas vezes, a uma experiência que lemos em algum livro (internet). Se deve respeitar o encontro de fé da igreja que é capaz de se encontrar com o Ressuscitado.

Outro passo importante é esclarecer quais são os três dias que compõem o Tríduo Pascal. O tempo cronológico nos habitua a pensar que os três dias (tríduo) são: quinta-feira, sexta-feira e sábado santos, e, ainda, que esses três dias servem como preparação para a Páscoa.

Na verdade, o Tríduo Pascal é a Páscoa celebrada em três dias. Não podemos dividir a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Os três acontecimentos é somente um Mistério. Quando somente celebramos a Paixão e a Morte, corremos o risco de deixarmos a Ressurreição como um “outro” evento totalmente à parte, e não é bem assim. A solenidade anual da Páscoa é diferente de todas as outras solenidades e festas do ano litúrgico; não é uma solenidade de apenas um dia, mas de três dias distintos que se igualam na mesma solenidade.

Salvatore Marsili, um dos maiores teólogos da liturgia do último século, diz que “o cume do Tríduo é o Domingo de Páscoa”. Da ‘Missa da Ceia do Senhor’ (quinta-feira) até o fim da ‘Solene Adoração da Santa Cruz’ (sexta-feira) celebramos o primeiro dia; da ‘Solene Adoração da Santa Cruz’ até o fim da ‘Vigília Pascal’ (sábado à noite), o segundo dia; do fim da ‘Vigília Pascal’ até a última celebração do ‘Domingo da Ressurreição’, celebramos o terceiro dia, completando o Tríduo Pascal. Acompanhando a liturgia veremos que quinta, sexta e sábado constituem uma celebração e no domingo da Páscoa iniciamos outra celebração. Não sendo ‘quatro’ missas, mas apenas duas em três dias”.

Desse modo, ao celebrarmos esses dias vemos se cumprir as palavras do próprio Deus a Moisés e a Aarão na terra do Egito: “Esse dia será para vocês um memorial, pois nele celebrarão uma festa de Javé. Vocês o celebrarão como um rito permanente, de geração em geração. [...] Quando seus filhos perguntarem: Que rito é este? Vocês responderão: 'É o sacrifício da Páscoa de Javé”[3].

Somos convidados a todos os dias vivermos esse Mistério, celebrando os momentos e mudando nossa mentalidade para participarmos efetivamente da Páscoa. Hoje, encontramos nas ruas ‘cristãos’ que escolhem um dos três dias para “ir” na Igreja. Certamente o “ir” deste modo, tem o sentido de um preceito, uma obrigação falando que é bom “ir”, e, com isso, perdemos o verdadeiro sentido de celebrar (participar) do projeto de Deus. “Ir” a um dos três dias é reduzir todo o Mistério não se comprometendo para uma mudança de vida interior e social. Assim, encontramos um cristianismo pagão que celebra por preceito, porque é bom, porque dá sorte, ou ainda, porque faz mal não ir à igreja nesses dias.

O Tríduo Pascal são “dias memoriais” que recordam a libertação do Egito, a prefiguração da nossa libertação em Cristo. Dias celebrativos que nos fazem a crer que pela paixão-morte-ressurreição de Cristo, única Páscoa da nossa salvação, todos nós, homens e mulheres, passamos Nele e com Ele do pecado à vida em Deus. Aqui, encontramos o sentido de toda a preparação quaresmal e do convite à conversão.

Celebrar a Páscoa em três dias é mais do que reviver um fato histórico, mas é recordar e atualizar o sacrifício de Jesus no mundo atual acolhendo os sacramentos que nos garantem uma nova vida e juntos entoarmos: “O cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue do Senhor”[4].

Estes dias memoriais nos convidam, a partir do caráter único do evento Pascal, uma vez no ano cumprir três ações simbólicas: adorar a cruz de joelhos, estar em silêncio no sepulcro, vigiar em torno ao Círio. Tais gestos correspondem à verdade da história evangélica onde encontramos uma unidade entre o Crucificado e o Ressuscitado, conhecido como “Mistério Pascal” desde o inicio do cristianismo[5].

Na ostentação, procissão e adoração da cruz somos convidados a partir da revelação do Mistério a dar uma resposta. O ministro canta: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo”, e a assembleia responde: “Vinde, adoremos!”. Cada um se ajoelha exprimindo o estupor diante de um evento incompreensível à lógica humana. O estupor é caracterizado em um gesto que acompanha uma grande sensibilidade: o beijo. Tal expressão é a compreensão de que naquela morte já existe a vida, esta não vem somente depois, ao terceiro dia. É um ato simbólico coerente com a fecundidade da vida.

No sábado santo chama-nos atenção outro gesto significativo. O estar em silêncio em um dia particular caracteriza o ideal de viver a Páscoa anual como salvação do tempo marcado pelo vórtice do nada. No dia anterior tínhamos deixado a Igreja em silêncio, mas este agora recebe uma força mais significativa pela força da ausência, contemplando o amor na sua descida ao mais fundo abismo.

O sábado santo é o dia do silêncio. No sétimo dia é o repouso de Deus, afirma o livro do Génesis; no sétimo dia Deus terminou a sua obra e repousou; no sétimo dia também Cristo termina a sua obra de salvação e repousa no “útero” da terra.

Assim, Na sexta-feira contemplamos na glória do Crucifixo como primeira cena da Páscoa anual: olhar o peito traspassado de Cristo nos conduz ao rito de adoração da Cruz; e, antes de entrar em outro momento, onde na noite encontramos uma segunda cena, a “descida nos infernos” já nos envolve num silêncio perspectivo. Se aos pés da cruz gloriosa somos capazes de contemplar a revelação do amor, no final do grande silêncio do sábado santo viveremos a passagem de vida, onde Cristo supera a morte.

O Ritual da Vigília é marcado pela: Ascenção do Círio Pascal, o canto do Exultat e na escuta das Escrituras como nossa História da Salvação. São propostas que nos animam a “ficar acordados” no coração da noite. Celebrar a Vigília a noite envolve a comunidade na esperança salvífica que nos faz passar das trevas à luz. O Círio é sinal do ressuscitado. Cheios de estupor cantamos o Exultat com nossas velas acessas na luz do ressuscitado. A força santificante desta noite apaga o mal, lava a culpa, inocenta o pecador e enche de alegria os aflitos, extirpa o ódio, a dureza dos potentes e nos conduz à paz e a concórdia.

Estas três ações: adorar a cruz de joelhos, estar em silêncio no sepulcro, vigiar na espera do Ressuscitado em torno ao Círio, caracterizam a cena ritual de cada dia. Mas, o sentido mais profundo é vivido na unidade celebrativa do Tríduo que é a revelação do amor da Trindade.
 

Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
Uma santa e abençoada Páscoa!
 
 
 
Artigo publicado: Marques, L.F., Triduo Pascal, in: Revista Cavaleiro da Imaculada 426 (03/2016) 24-27 



[1] Cf. SC, 5.
[2] Cf. idem., 48.
[3] Cf. Ex 12, 14. 26-27.
[4] Cf. I Cor 10, 16.
[5] Giordano Remondi, Adorare – stare in silenzio – vegliare, La “diversa” festa solenne del Triduo pasquale, 2015.

domingo, 6 de março de 2016

A MENSAGEM DE UMA PARÁBOLA: UM PAI E UM DEUS DIFERENTE


O quarto domingo da quaresma, em particular neste ano, ano da misericórdia, onde somos convidados a contemplar o rosto misericordioso de Deus, nos premia com um texto evangélico magnifico para aprofundarmos nesta contemplação.
 
   Proclamamos uma parábola que deveria ser intitulada pela centralidade da misericórdia: parábola do pai misericordioso[1]. É uma das maiores narrações sobre a misericórdia de Deus. Afirma ainda Kasper: “em nenhuma outra parabola Jesus descreveu tão magistralmente a misericórdia de Deus como nessa”[2] 


   O evangelista Lucas, “scriba mansuetudinis Christi”, como afirmava Dante Alighieri, ocupa mais da metade do seu capítulo décimo quinto com a famosa parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32).

 
O pai da parábola de Jesus, um pai diferente, longe das suas ações legais, é a metáfora do Deus que ele anuncia, a cuja casa sempre nos chama a retornar. É a metáfora de um Deus contrário a toda humana forma de pensar: é um Deus diferente[3].

 
Uma das afirmações centrais do evangelista é que naquela casa não falta nada (cf. v.17), porém o filho mais novo quer procurar outra felicidade que imagina ser superior. O filho proclama a morte do Pai, quer sua herança. Eis o grande perigo da ideologia moderna que quer gozar dos bens divinos, das obras criadas, da beleza de Deus, mas quer proclama-lo morto: “Deus está morto”. Não queremos ser gerenciados por ninguém, queremos conduzir uma vida sozinhos, queremos ser patrão de nós mesmos, não queremos confiar e depender de Deus, possuindo assim um coração inquieto. Ainda podemos intitular a parábola como “da modernidade e do nosso coração inquieto”.

 
O pai respeita a liberdade do filho e permite a sua partida. O filho vai a uma região longínqua e desperdiça sua herança numa vida devassa (v.13). Um príncipe se torna escravo; um rei, vassalo; um filho, servo. Assim, no seu caminho começa a sentir-se necessitado e foi capaz de querer alimentar-se com alimentos desumanos (cf. v.16), a partir disso “caindo-se em si” (v.17), reconhece a fartura e a beleza da casa de seu pai[4].

 
Na descrição do encontro do pai com o filho nos chama a atenção que o pai o reconhece ainda de longe (v.20)[5]. Certamente, para o pai, o filho abusou sim dos seus próprios direitos e perdeu os bens da sua casa, mas isto não lhe interessa, o que lhe importa é a vida do seu filho. Desse modo, não espera que o filho chegue, mas lhe vai ao encontro.

 
As características deste Pai, que nós as transferimos para Deus é: humildade, Deus acredita na humanidade, se inclina com misericórdia e com respeito a sua alteridade – como cantava Francisco de Assis no Louvor ao Deus Altíssimo: “Tu és humildade”); é um Deus de esperança, escruta o horizonte – olha ao longe, tem a certeza do retorno; é um Deus rachamim, que na linguagem do primeiro testamento possui vísceras maternas; é um Deus corajoso, é um pai que não tem medo de perder a sua identidade, seu comportamento solene, patriarcal, hierárquico; é um Deus alegre – que faz festa, o beija, o abraça, e mediante três símbolos (a melhor túnica, anel no dedo e sandálias aos pés) reintegra a identidade filial (cf. v.22).

 
O arrependimento do filho, expresso quando o mesmo diz: “não sou digno de ser chamado teu filho” (v.21), é acolhido e superado pela misericórdia do pai.

 
Oposta à ação paterna é a do filho mais velho (obediente, mas frustrado; certinho, mas sem convicção), os mesmos têm objetivos e linguagem contrapostas: um fala de novilho e patrimônio, outro de filho reencontrado e ressuscitado; um recorda a lei, outro recorda o coração, o amor e a compreensão; um se coloca na posição de justo castigo, outro se coloca na prospectiva do perdão e da misericórdia.
 
Il genere di perfezione vissuta dal figlio maggiore gli impedisce di entrare nella logica del padre, una logica basata sull’amore gratuito: la sollecitudine del padre gli appare esagerata, ingiusta. Lo scandalo che provoca quest’amore per il primo figlio porta alla luce la gelosia del secondo, gelosia che a sua volta manifesta il rapporto falso, inautentico che esisteva tra il primogenito e suo padre: il secondo figlio non ama un padre, ma obbedisce a un padrone[6].

  
A partir do discurso do filho mais velho com o pai, afirmamos que a misericórdia do pai nesta parábola é a melhor realização da justiça, pois: “torna-se claro que o amor se transforma em misericórdia quando é preciso ir além da norma exata da justiça: norma precisa, mas, por vezes, demasiada e rigorosa”[7].

 
Por conseguinte, toda a atitude e ação no pai da parábola nos permite encontrar a visão da misericórdia no AT, porém de uma maneira nova, simples e profunda. Existe uma verdadeira comoção: tudo é cercado de alegria e misericórdia[8]. O pai do filho pródigo é fiel à sua paternidade e tal fidelidade manifestou-se na prontidão com que foi capaz de receber seu filho que retornava de uma vida de gastos e na sua alegre e acolhedora generosidade ao fazer uma festa.
 
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.





[1] Cf. U. Terrinoni, Il messaggio, 161-184; K. Romaniuk, La misericórdia nella Bibbia¸ 83; W. Kasper, Misericordia, 107. Outras denominações nos confere Ramos-Regidor: «In un senso generale si può dire innanzitutto che questa è la parabola della condizione umana, perchè tutti sono peccatori, allontanati dal Padre e infedeli alla sua alleanza. Ma essa è anche la parabola dell’amore misericordioso di Dio verso gli uomini: Dio è Padre che rispetta la libertà del peccatore, ma attende il suo ritorno e corre incontro con le braccia aperte al peccatore pentito. Finalmente essa è anche la parabola del ritorno, della conversione lenta, dolorosa, progressiva del peccatore verso il padre» (J. Ramos-regidor, Il sacramento della penitenza, 116).
[2] W. Kasper, Misericordia, 108.
[3] Cf. B. Forte, «Perdono e riconciliazione: scenari del tempo, scenari del cuore», in Aa.Vv. Celebrare la misericordia, 15-25.
[4] Afirma João Paulo II: «O homem, – cada um dos homens – é este filho pródigo: fascinado pela tentação de se separar do Pai para viver de modo independente a própria existência; caído na tentação; desiludido do nada que, como miragem, o tinha deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que tenta construir um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo da própria miséria, pelo desejo de voltar à comunhão com o Pai. Como o pai da parábola, Deus fica à espreita do regresso do filho, abraça-o à sua chegada e põe a mesa para o banquete do novo encontro, com que se festeja a reconciliação» (João Paulo II, «Riconciliatio et paenitentia», n.5).
[5] Comenta Aletti: «Per il padre conta una sola cosa: che sia lì e che possa restituirlo alla vita, alla gioia dei figli. Apprendiamo poi che durante tutto il tempo della separazione, il padre ha sempre considerato il giovane come suo figlio [...] La filiazione non era perciò legata ad un merito, ma veniva da una decisione paterna intangibile, era una condizione che non si poteva perdere: tu sei e resterai il mio figlio, dovunque tu sia andato e qualunque cosa tu abbia fatto» (J.N. Aletti, Il Gesù di Luca, 153).
[6] G. Rossè, Il Vangelo di Luca. Commento esegetico e teologico, 615.
[7] DM, n.6.
[8] Escreve Romaniuk: «in tutte e tre le parabole della misericordia di Luca, la misericordia è inseparabile dall’alegria, o, per meglio dire, la gioia è la conseguenza o il frutto della misericordia» (K. Romaniuk, La misericórdia nella Bibbia¸ 84).