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A descida de Cristo aos infernos onde toma pelas mãos Adão e Eva
para traze-los à vida (Igreja da S. Trindade - Monte Argentario - Italia).
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Depois de 40 dias de preparação pela oração,
jejum e esmola “viveremos” o porquê nos preparamos para celebrar. É o Mistério
de Cristo consagrado em três dias numa semana diferente que chamamos de
“santa”, pois nela celebramos os mistérios de nossa salvação.
Estamos diante da “perfeita obra da redenção”, ou seja, do projeto de Deus que foi
realizado em Jesus através do Mistério de sua Paixão, Morte, Ressurreição e
Ascensão, em que “morrendo destruiu a
nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida”[1].
Celebrar essa liturgia é atualizar esse
mistério, não apenas reduzindo-o a recordação de um fato salvífico e histórico,
mas o tornando presente pela riqueza da nossa fé. Esses dias são consagrados
através de ritos e gestos, de orações, de textos, de cantos, de momentos de
silêncio e adoração. De fato, o desejo da Igreja é que os cristãos não entrem
neste Mistério de Fé como “estranhos ou
espectadores mudos, mas participem ativamente da ação sagrada, [...] por meio
dos ritos e das orações”[2].
As equipes de liturgia, sobretudo, os
coordenadores e comentaristas, são convidados a deixarem os ritos falarem por
si mesmos. A comunidade deve fazer sua experiência de celebrar não explicando a
riqueza de cada gesto ou símbolo utilizado. O comentário reduz uma experiência
comunitária a uma experiência individual e, muitas vezes, a uma experiência que
lemos em algum livro (internet). Se deve respeitar o encontro de fé da igreja
que é capaz de se encontrar com o Ressuscitado.
Outro passo importante é esclarecer quais são
os três dias que compõem o Tríduo Pascal. O tempo cronológico nos habitua a
pensar que os três dias (tríduo) são: quinta-feira, sexta-feira e sábado
santos, e, ainda, que esses três dias servem como preparação para a Páscoa.
Na verdade, o Tríduo Pascal é a Páscoa
celebrada em três dias. Não podemos dividir a Paixão, Morte e Ressurreição de
Jesus. Os três acontecimentos é somente um Mistério. Quando somente celebramos
a Paixão e a Morte, corremos o risco de deixarmos a Ressurreição como um
“outro” evento totalmente à parte, e não é bem assim. A solenidade anual da
Páscoa é diferente de todas as outras solenidades e festas do ano litúrgico;
não é uma solenidade de apenas um dia, mas de três dias distintos que se
igualam na mesma solenidade.
Salvatore Marsili, um dos maiores teólogos da
liturgia do último século, diz que “o
cume do Tríduo é o Domingo de Páscoa”. Da ‘Missa da Ceia do Senhor’
(quinta-feira) até o fim da ‘Solene Adoração da Santa Cruz’ (sexta-feira)
celebramos o primeiro dia; da ‘Solene Adoração da Santa Cruz’ até o fim da
‘Vigília Pascal’ (sábado à noite), o segundo dia; do fim da ‘Vigília Pascal’
até a última celebração do ‘Domingo da Ressurreição’, celebramos o terceiro
dia, completando o Tríduo Pascal. Acompanhando a liturgia veremos que quinta,
sexta e sábado constituem uma celebração e no domingo da Páscoa iniciamos outra
celebração. Não sendo ‘quatro’ missas, mas apenas duas em três dias”.
Desse modo, ao celebrarmos esses dias
vemos se cumprir as palavras do próprio Deus a Moisés e a Aarão na terra do
Egito: “Esse dia será para vocês um memorial, pois nele
celebrarão uma festa de Javé. Vocês o celebrarão como um rito permanente, de
geração em geração. [...] Quando seus filhos perguntarem: Que rito é este?
Vocês responderão: 'É o sacrifício da Páscoa de Javé”[3].
Somos convidados a todos os
dias vivermos esse Mistério, celebrando os momentos e mudando nossa mentalidade
para participarmos efetivamente da Páscoa. Hoje, encontramos nas ruas
‘cristãos’ que escolhem um dos três dias para “ir” na Igreja. Certamente o “ir”
deste modo, tem o sentido de um preceito, uma obrigação falando que é bom “ir”,
e, com isso, perdemos o verdadeiro sentido de celebrar (participar) do projeto
de Deus. “Ir” a um dos três dias é reduzir todo o Mistério não se comprometendo
para uma mudança de vida interior e social. Assim, encontramos um cristianismo
pagão que celebra por preceito, porque é bom, porque dá sorte, ou ainda, porque
faz mal não ir à igreja nesses dias.
O Tríduo Pascal são “dias memoriais” que recordam a libertação do Egito, a prefiguração
da nossa libertação em Cristo. Dias celebrativos que nos fazem a crer que pela
paixão-morte-ressurreição de Cristo, única Páscoa da nossa salvação, todos nós,
homens e mulheres, passamos Nele e com Ele do pecado à vida em Deus. Aqui,
encontramos o sentido de toda a preparação quaresmal e do convite à conversão.
Celebrar a Páscoa em três dias
é mais do que reviver um fato histórico, mas é recordar e atualizar o
sacrifício de Jesus no mundo atual acolhendo os sacramentos que nos garantem
uma nova vida e juntos entoarmos: “O
cálice por nós abençoado é a nossa comunhão com o sangue do Senhor”[4].
Estes dias memoriais nos convidam,
a partir do caráter único do evento Pascal, uma vez no ano cumprir três
ações simbólicas: adorar a cruz de
joelhos, estar em silêncio no
sepulcro, vigiar em torno ao Círio.
Tais gestos correspondem à verdade da história evangélica onde encontramos uma
unidade entre o Crucificado e o Ressuscitado, conhecido como “Mistério Pascal”
desde o inicio do cristianismo[5].
Na ostentação, procissão e adoração da cruz somos
convidados a partir da revelação do Mistério a dar uma resposta. O ministro
canta: “Eis o lenho da cruz do qual pendeu a salvação do mundo”, e a assembleia
responde: “Vinde, adoremos!”. Cada um se ajoelha exprimindo o estupor diante de
um evento incompreensível à lógica humana. O estupor é caracterizado em um
gesto que acompanha uma grande sensibilidade: o beijo. Tal expressão é a
compreensão de que naquela morte já existe a vida, esta não vem somente depois,
ao terceiro dia. É um ato simbólico coerente com a fecundidade da vida.
No sábado santo chama-nos atenção outro gesto
significativo. O estar em silêncio em um dia particular caracteriza o ideal de
viver a Páscoa anual como salvação do tempo marcado pelo vórtice do nada. No
dia anterior tínhamos deixado a Igreja em silêncio, mas este agora recebe uma
força mais significativa pela força da ausência, contemplando o amor na sua
descida ao mais fundo abismo.
O sábado santo é o dia do silêncio. No sétimo
dia é o repouso de Deus, afirma o livro do Génesis; no sétimo dia Deus terminou
a sua obra e repousou; no sétimo dia também Cristo termina a sua obra de
salvação e repousa no “útero” da terra.
Assim, Na sexta-feira contemplamos na glória do
Crucifixo como primeira cena da Páscoa anual: olhar o peito traspassado de
Cristo nos conduz ao rito de adoração da Cruz; e, antes de entrar em outro
momento, onde na noite encontramos uma segunda cena, a “descida nos infernos”
já nos envolve num silêncio perspectivo. Se aos pés da cruz gloriosa somos
capazes de contemplar a revelação do amor, no final do grande silêncio do
sábado santo viveremos a passagem de vida, onde Cristo supera a morte.
O Ritual da Vigília é marcado pela: Ascenção do
Círio Pascal, o canto do Exultat e na
escuta das Escrituras como nossa História da Salvação. São propostas que nos
animam a “ficar acordados” no coração da noite. Celebrar a Vigília a noite
envolve a comunidade na esperança salvífica que nos faz passar das trevas à
luz. O Círio é sinal do ressuscitado. Cheios de estupor cantamos o Exultat com nossas velas acessas na luz
do ressuscitado. A força santificante desta noite apaga o mal, lava a culpa,
inocenta o pecador e enche de alegria os aflitos, extirpa o ódio, a dureza dos
potentes e nos conduz à paz e a concórdia.
Estas três ações: adorar a cruz de joelhos, estar
em silêncio no sepulcro, vigiar
na espera do Ressuscitado em torno ao Círio, caracterizam a cena ritual de cada
dia. Mas, o sentido mais profundo é vivido na unidade celebrativa do Tríduo que
é a revelação do amor da Trindade.
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
Uma santa e abençoada Páscoa!
Artigo publicado: Marques, L.F., Triduo Pascal, in: Revista Cavaleiro da Imaculada 426 (03/2016) 24-27
[1] Cf. SC, 5.
[2] Cf. idem.,
48.
[3] Cf. Ex 12, 14. 26-27.
[4] Cf. I Cor 10, 16.
[5] Giordano Remondi, Adorare – stare in silenzio – vegliare, La “diversa”
festa solenne del Triduo pasquale, 2015.

