O quarto
domingo da quaresma, em particular neste ano, ano da misericórdia, onde somos
convidados a contemplar o rosto misericordioso de Deus, nos premia com um texto
evangélico magnifico para aprofundarmos nesta contemplação.
Proclamamos uma
parábola que deveria ser intitulada pela centralidade da misericórdia: parábola
do pai misericordioso[1]. É uma das maiores
narrações sobre a misericórdia de Deus. Afirma ainda Kasper: “em nenhuma outra
parabola Jesus descreveu tão magistralmente a misericórdia de Deus como nessa”[2].
O evangelista Lucas, “scriba mansuetudinis Christi”, como afirmava Dante Alighieri, ocupa mais da metade do seu capítulo décimo quinto com a famosa parábola do filho pródigo (cf. Lc 15, 11-32).
O pai da
parábola de Jesus, um pai diferente, longe das suas ações legais, é a metáfora
do Deus que ele anuncia, a cuja casa sempre nos chama a retornar. É a metáfora
de um Deus contrário a toda humana forma de pensar: é um Deus diferente[3].
Uma das
afirmações centrais do evangelista é que naquela casa não falta nada (cf.
v.17), porém o filho mais novo quer procurar outra felicidade que imagina ser
superior. O filho proclama a morte do Pai, quer sua herança. Eis o grande
perigo da ideologia moderna que quer gozar dos bens divinos, das obras criadas,
da beleza de Deus, mas quer proclama-lo morto: “Deus está morto”. Não queremos ser
gerenciados por ninguém, queremos conduzir uma vida sozinhos, queremos ser
patrão de nós mesmos, não queremos confiar e depender de Deus, possuindo assim um
coração inquieto. Ainda podemos intitular a parábola como “da modernidade e do
nosso coração inquieto”.
O pai respeita
a liberdade do filho e permite a sua partida. O filho vai a uma região
longínqua e desperdiça sua herança numa vida devassa (v.13). Um príncipe se
torna escravo; um rei, vassalo; um filho, servo. Assim, no seu caminho começa a
sentir-se necessitado e foi capaz de querer alimentar-se com alimentos desumanos
(cf. v.16), a partir disso “caindo-se em si” (v.17), reconhece a fartura e a
beleza da casa de seu pai[4].
Na descrição do
encontro do pai com o filho nos chama a atenção que o pai o reconhece ainda de
longe (v.20)[5].
Certamente, para o pai, o filho abusou sim dos seus próprios direitos e perdeu
os bens da sua casa, mas isto não lhe interessa, o que lhe importa é a vida do
seu filho. Desse modo, não espera que o filho chegue, mas lhe vai ao encontro.
As características
deste Pai, que nós as transferimos para Deus é: humildade, Deus acredita na humanidade, se inclina com misericórdia
e com respeito a sua alteridade – como cantava Francisco de Assis no Louvor ao
Deus Altíssimo: “Tu és humildade”); é um
Deus de esperança, escruta o horizonte – olha ao longe, tem a certeza do retorno;
é um Deus rachamim, que na linguagem do primeiro testamento possui vísceras
maternas; é um Deus corajoso, é um
pai que não tem medo de perder a sua identidade, seu comportamento solene,
patriarcal, hierárquico; é um Deus
alegre – que faz festa, o beija, o abraça, e mediante três símbolos (a
melhor túnica, anel no dedo e sandálias aos pés) reintegra a identidade filial
(cf. v.22).
O
arrependimento do filho, expresso quando o mesmo diz: “não sou digno de ser
chamado teu filho” (v.21), é acolhido e superado pela misericórdia do pai.
Oposta à ação
paterna é a do filho mais velho (obediente, mas frustrado; certinho, mas sem convicção), os mesmos têm objetivos e linguagem
contrapostas: um fala de novilho e patrimônio, outro de filho reencontrado e
ressuscitado; um recorda a lei, outro recorda o coração, o amor e a
compreensão; um se coloca na posição de justo castigo, outro se coloca na
prospectiva do perdão e da misericórdia.
Il genere di perfezione vissuta dal figlio maggiore gli
impedisce di entrare nella logica del padre, una logica basata sull’amore
gratuito: la sollecitudine del padre gli appare esagerata, ingiusta. Lo
scandalo che provoca quest’amore per il primo figlio porta alla luce la gelosia
del secondo, gelosia che a sua volta manifesta il rapporto falso, inautentico
che esisteva tra il primogenito e suo padre: il secondo figlio non ama un
padre, ma obbedisce a un padrone[6].
A partir do
discurso do filho mais velho com o pai, afirmamos que a misericórdia do pai
nesta parábola é a melhor realização da justiça, pois: “torna-se claro que o
amor se transforma em misericórdia quando é preciso ir além da norma exata da
justiça: norma precisa, mas, por vezes, demasiada e rigorosa”[7].
Por
conseguinte, toda a atitude e ação no pai da parábola nos permite encontrar a
visão da misericórdia no AT, porém de uma maneira nova, simples e profunda.
Existe uma verdadeira comoção: tudo é cercado de alegria e misericórdia[8]. O pai do filho pródigo é
fiel à sua paternidade e tal fidelidade manifestou-se na prontidão com que foi
capaz de receber seu filho que retornava de uma vida de gastos e na sua alegre
e acolhedora generosidade ao fazer uma festa.
Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.
[1] Cf. U. Terrinoni, Il messaggio, 161-184; K. Romaniuk, La misericórdia nella Bibbia¸ 83; W. Kasper, Misericordia,
107. Outras denominações nos confere Ramos-Regidor: «In un senso generale si
può dire innanzitutto che questa è la parabola
della condizione umana, perchè tutti sono peccatori, allontanati dal Padre
e infedeli alla sua alleanza. Ma essa è anche la parabola dell’amore misericordioso di Dio verso gli uomini: Dio è
Padre che rispetta la libertà del peccatore, ma attende il suo ritorno e corre
incontro con le braccia aperte al peccatore pentito. Finalmente essa è anche la
parabola del ritorno, della
conversione lenta, dolorosa, progressiva del peccatore verso il padre» (J. Ramos-regidor, Il sacramento della penitenza, 116).
[3] Cf. B. Forte, «Perdono e
riconciliazione: scenari del tempo, scenari del cuore», in Aa.Vv. Celebrare la misericordia, 15-25.
[4] Afirma João
Paulo II: «O homem, – cada um dos homens – é este filho pródigo: fascinado pela
tentação de se separar do Pai para viver de modo independente a própria
existência; caído na tentação; desiludido do nada que, como miragem, o tinha
deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que tenta construir
um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo da própria miséria, pelo
desejo de voltar à comunhão com o Pai. Como o pai da parábola, Deus fica à
espreita do regresso do filho, abraça-o à sua chegada e põe a mesa para o
banquete do novo encontro, com que se festeja a reconciliação» (João Paulo II, «Riconciliatio et paenitentia», n.5).
[5] Comenta Aletti: «Per
il padre conta una sola cosa: che sia lì e che possa restituirlo alla vita,
alla gioia dei figli. Apprendiamo poi che durante tutto il tempo della
separazione, il padre ha sempre considerato il giovane come suo figlio [...] La
filiazione non era perciò legata ad un merito, ma veniva da una decisione
paterna intangibile, era una condizione che non si poteva perdere: tu sei e
resterai il mio figlio, dovunque tu sia andato e qualunque cosa tu abbia fatto»
(J.N. Aletti, Il Gesù di Luca, 153).
[8] Escreve Romaniuk: «in tutte e
tre le parabole della misericordia di Luca, la misericordia è inseparabile dall’alegria,
o, per meglio dire, la gioia è la conseguenza o il frutto della misericordia»
(K. Romaniuk, La misericórdia nella Bibbia¸ 84).
Gratidão, porque assim a Homilia de hoje permanece por escrito para nossa reflexão posterior!
ResponderExcluirNossa linda reflexão Frei Felipe neste parábola o senhor vem nos mostrar a misericórdia do Pai para conosco, primeiro diante do filho que depois de gastar tudo volta arrependido, e depois a frustração do irmão, mas velhos que espera do pai uma rigidez talvez até uma expulsão do filho por ter perdido tudo, mas o filho empregado e obediente não tem o coração formado com o coração do pai, por isto não aprendeu a ser misericordioso. Obrigado por esta reflexão Frei.
ResponderExcluirMaravilha frei Felipe Deus seja louvado por sua vocação.
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